Archive for the ‘ Um Reino Maravilhoso ’ Category

Vale Encantado

Na encosta sobre a margem esquerda do Rio Côa e antes de chegar à ponte férrea, está a nascer o Museu de Arte e Arqueologia do Vale do Côa

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O Tempo e a Alma

Não quero ser o último a comer-te.
Se em tempo não ousei, agora é tarde.
Nem sopra a flama antiga nem beber-te
aplacaria sede que não arde

em minha boca seca de querer-te,
de desejar-te tanto e sem alarde,
fome que não sofria padecer-te
assim pasto de tantos, e eu covarde

a esperar que limpasses toda a gala
que por teu corpo e alma ainda resvala,
e chegasses, intata, renascida,

para travar comigo a luta extrema
que fizesse de toda a nossa vida
um chamejante, universal poema.

Carlos Drummond de Andrade

Agora vou perder-me no serpenteado do Douro e entre as fragas espalhar umas cinzas.
De seguida, convidarei os deuses para um repasto com fruta da época.
Só então estará completa a catarse.

O Reino que será dos que queiram merecê-lo…

No centenário do seu nascimento (no próximo dia 12), impõe-se uma visita ao Reino que Torga testemunhou, embora muitas pessoas digam que não.
Para percorrer as terras por si enaltecidas, tentei que os meus olhos não perdessem a virgindade original diante desta realidade. Foi sem hesitação que lá deixei o coração, o que quase me ia sendo fatal. A 27, dia do nascimento de meu pai, espero voltar ao Vale Encantado.
Os textos em itálico pertencem a Um Reino Maravilhoso, os restantes textos foram retirados daqui. As imagens são minhas.

Os sabores da terra

A oferta gastronómica não se assume como simples curiosidade regional, mas como verdadeira expressão dos hábitos e costumes transmontanos, que brota da força fertilizante da terra e do viço das árvores.

Mas a terra é a própria generosidade ao natural. Como num paraíso, basta estender a mão. Produz batata, azeite, cortiça e linho. Batata farinhuda, que se desfaz na boca; azeite loiro, que sai em luz da almotolia; cortiça que deixa os sobreiros nus para agasalhar os enxames; e linho fresco, fino, que, tecido em lençóis, faz o bragal das noivas.
De figos, nozes, amêndoas, maçãs, pêras, cerejas e laranjas nem vale a pena falar. São mimos dum pomar variegado, que nenhuma imaginação descreve quando a primavera estala nos ramos.

O pão é o alimento apreciado na mesa transmontana, mas que, desde o lançamento da semente à terra, da sua colheita, da malhada até ao ritual da cozedura, revela o trabalho árduo do homem feito camponês:

Não se vê por que maneira este solo é capaz de dar pão e vinho. Mas dá. Pão de milho, de centeio, de cevada e de trigo. Pão integral. Por ser pão e por ser amassado com o suor do rosto. Sabe a trabalho. Mas é por isso que os naturais o beijam quando ele cai no chão…

Festas/S. Martinho

Algumas festividades implicam manjares próprios das comemorações dos respectivos oragos ou patronos. É o caso do dia de S. Martinho, cujas celebrações são festejadas com “magustos” de castanhas e vinho.

Mas o fruto dos frutos, o único que ao mesmo tempo alimenta e simboliza, cai dumas árvores altas, imensas centenárias, que, puras como vestais, parecem encarnar a virgindade da própria paisagem. […] a castanha. Assada, no S. Martinho, serve de lastro à prova do vinho novo. Cozida, no Janeiro glacial, aquece as mãos e a boca de pobres e ricos. Crua, engorda os porcos, com a vossa licença…

O Vinho e a Vinha

O vinho de moscatel, de alvarelhão, de penaguiota, de malvasia fina, o “vinho do Porto”, que seguia, em tempos idos, em barcos rabelos até à zona ribeirinha do Porto e de Gaia, tem a sua expressão máxima nas encostas xistosas do Douro.

Nas margens de um rio de oiro , crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos , varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como os manjericos às janelas. No Setembro, os homens deixam as eiras da Terra-Fria e descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto. Cantam, dançam e e trabalham. Depois sobem. E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do mundo.


Matança do porco

A matança do porco e o fumeiro, como uma festividade doméstica, encontram-se entre os costumes que Miguel Torga mais vezes relata. Não apenas como espectador, mas como participante activo dessa tradição secular da sua aldeia.

É destes que se tem de partir para chegar à trindade tradicional do reino: os presuntos, as alheiras e os salpicões.
Por alturas do Natal, começa a matança. Ao romper da manhã, a paz de cada povoado é subitamente alarmada. Um grito esfaqueado irrompe do silêncio. Dias depois desmancha-se a bisarma, e um pálio de fumeiro cobre a lareira.
Quem não comeu ainda desses manjares ensacados, prove… E há-de encontrar neles o sabor das invernadas passadas ao borralho enquanto a neve cai, o perfume das graças dadas por alma daqueles que Deus tem, a magia da história de João de Calais contada aos filhos, e uma ciência infusa de temperar, que vem desde que a primeira nau chegou à Índia.

A Paisagem Humana

A realidade transmontana está associada a factores que exercem influência na singularidade das atitudes e da cultura do homem montanhês. Este, tal como Miguel Torga o canta, está habituado ao isolamento morfogeológico e crente só em si na luta pela sobrevivência, assume-se como entidade autóctone, dotada de notável robustez, de grande coragem, de sentimento granítico e de espírito aberto, franco e solidário com seus irmãos.

Homens de uma só peça , inteiriços, altos e espadaúdos, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas do chão. Castiços nos usos e costumes, cobrem-se com varinos, croças e mais roupas de serrobeco ou de colmo, e nas grandes ocasiões ostentam uma capa de honras, que nenhum rei! […] Bata-se a uma porta, rica ou pobre, e sempre a mesma voz confiada nos responde:
–Entre quem é!
Sem ninguém a perguntar mais nada, sem ninguém vir à janela espreitar, escancara-se a intimidade duma família inteira. O que é preciso agora é merecer a magnificência da dádiva.

Trás-os-Montes

O território torguiano, como o poeta tão bem trasladou em forma de letra para a sua obra, é todo o Portugal, e é ainda a Ibéria. Neste roteiro é, no entanto, obrigatório delimitar, nesta vastidão espacial, as principais fronteiras. Eis Trás-os-Montes.

A autoridade emana da força interior que cada qual traz do berço. Dum berço que oficialmente vai de Vila Real a Montalegre, de Vinhais a Bragança, de Bragança a Miranda, de Miranda a Freixo, de Freixo à Barca de Alva, da Barca à Régua e da Régua novamente a Vila Real, mas a que pertencem Foz Côa, Meda, Moimenta e Lamego – toda a vertente esquerda do Doiro até aos contrafortes do Montemuro, carne administrativamente enxertada num corpo alheio, que através do Côa, do Távora, do Torto, do Varosa e do Balsemão desagua na grande veia cava materna as lágrimas do exílio.
Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição.

Terra-Quente e Terra-Fria. Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas. Nos intervalos, apertados entre os lapedos, rios de água cristalina, cantantes, a matar a sede de tanta aridez. E de quando em quando, oásis da inquietação que fez tais rugas geológicas, um vale imenso, dum húmus puro, onde a vista descansa da agressão das penedias.

Veigas que alegram Chaves, Vila Pouca, Vilariça, Mirandela, Bragança e Vinhais.
Mas novamente o granito protesta. Novamente nos acorda para a força medular de tudo. E são outra vez serras, até perder de vista.

Postais de Portugal – Douro


Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há tanta fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga

Um Reino Maravilhoso

A memória nostálgica e distante da terra mítica de onde se abrange o resto de Portugal, neste Conto de Miguel Torga-1941, com as ilustrações antropomorfizadas de Graça Morais, de quem poderemos ver até início de Abril a Exposição “Os Olhos Azuis do Mar”.
Espero que todos os estrangeiros que amam estes dois portugueses maiores, tenham curiosidade e paciência para o disfrutar!

Vou falar-lhes dum reino maravilhoso.

Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo.
O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração,depois, não hesite.
Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe como é dos mais belos que se possam imaginar.
Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepara e atingir a crista do sonho, contempla a própria bem-aventurança.

Vê-se primeiro um mar de pedras.
Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador.
Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo de uma grande hora.
De repente, rasga a espessura do silêncio uma voz de franqueza desembainhada:
Para cá do Marão, mandam os que cá estão!

Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro.
Que penedo falou?
Que terror respeitoso se apodera de nós?
Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico, porque o nume invisível ordena:
Entre!

A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso.
Reino, nestes livros sinistros que são os dicionários, é um substantivo masculino com rei à frente. Imaginem!… Como se fossem suficientes um léxico e um monarca para definir e governar uma realidade irreal!
Pelo que diz respeito a mandar, é o que sabemos:
Para cá do Marão… Mandam todos.
O poder que atravessa a muralha e penetra ali, se tem corpo, se tem nome, ou perde a marca individual e se transforma em símbolo, ou morre. Tem de ser sempre, quer seja Pio X ou Pio XII, o «nosso Santo Papa Leão XIII», que é quem a Maria Purificada elege em cada conclave na sua Vila de Freixo de Espada à Cinta…
Incapazes de uma obediência imposta de fora, os habitantes da terra apenas consideram naturais e legítimos os imperativos da própria consciência.

O eco duma ordem estranha à sua harmonia interior desliza pela crosta das almas sem as perturbar. As mais altas dignidades de além-fronteiras nada mais representam do que puras expressões nominais de valores abstractos.
Meta-se um cristão por qualquer dos caminhos que levam ao coração geográfico desse mundo encantado. De certeza que lhe aparece um semelhante de aguilhada na mão, socos pregados e roupa de saragoça, a perguntar:
Ó meu senhor, sempre é verdade que o nosso rei agora é o Doutor Afonso Costa?
Faça o que fizer o Tamerlão invasor, a mesma vontade que ele julga dobrar o desroíza e vence. É ela que, a bem ou a mal, acaba por dispor das riquezas que lhe pertencem: das águas de regadio, dos baldios, da mulher e dos filhos, de si. De tudo o que na vida material e espiritual tem grandeza e sentido. No pormenor, no que não é seiva de ninguém, dão sentenças o Regedor e o Senhor Abade, que, afinal, pregam editais nas portas e sermões nas igrejas…

A autoridade emana da força interior que cada qual traz do berço. Dum berço que oficialmente vai de Vila Real a Montalegre, de Vinhais a Bragança, de Bragança a Miranda, de Miranda a Freixo, de Freixo à Barca de Alva, da Barca à Régua e da Régua novamente a Vila Real, mas a que pertencem Foz Côa, Meda, Moimenta e Lamego – toda a vertente esquerda do Doiro até aos contrafortes do Montemuro, carne administrativamente enxertada num corpo alheio, que através do Côa, do Távora, do Torto, do Varosa e do Balsemão desagua na grande veia cava materna as lágrimas do exílio.
Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição.

Terra-Quente e Terra-Fria. Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas. Nos intervalos, apertados entre os lapedos, rios de água cristalina, cantantes, a matar a sede de tanta aridez. E de quando em quando, oásis da inquietação que fez tais rugas geológicas, um vale imenso, dum húmus puro, onde a vista descansa da agressão das penedias.

Veigas que alegram Chaves, Vila Pouca, Vilariça, Mirandela, Bragança e Vinhais.
Mas novamente o granito protesta. Novamente nos acorda para a força medular de tudo. E são outra vez serras, até perder de vista.
Não se vê por que maneira este solo é capaz de dar pão e vinho. Mas dá. Pão de milho, de centeio, de cevada e de trigo. Pão integral. Por ser pão e por ser amassado com o suor do rosto. Sabe a trabalho. Mas é por isso que os naturais o beijam quando ele cai no chão…
O vinho é de moscatel, alvarelhão, penaguiota, malvasia fina, e mana das fragas à ordem de vozes imperiosas como a de Moisés quando feria a pedra do Horeb – a vara mágica patriarca substituída agora por um alvião de saibramento. Por toda a parte apetece saboreá-lo, porque mesmo onde a neve, o sincelo e o suão crestam a esperança, mesmo aí ele parece veludo no paladar. Mas há lugares santos onde a santidade é maior. Assim acontece no Roncão, Samos de todos os Samos.
Nas margens de um rio de oiro, cruxificado ente o calor que de cima o bebe e a sede do leito que debaixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como os manjericos às janelas. No Setembro, os homens descem as eiras da Terra-Fria e descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto. Cantam, dançam e trabalham. Depois sobem. E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do mundo.

Mas a terra é a própria generosidade ao natural. Como num paraíso, basta estender a mão. Produz batata, azeite, cortiça e linho. Batata farinhuda, que se desfaz na boca; azeite loiro, que sai em luz da almotolia; cortiça que deixa os sobreiros nus para agasalhar os enxames; e linho fresco, fino, que, tecido em lençois, faz o bragal das noivas.
De figos, nozes, amêndoas, maçãs, peras, cerejas e laranjas nem vale a pena falar. São mimos dum pomar variegado, que nenhuma imaginação descreve quando a Primavera estala nos ramos.
Ver uma encosta de Barca de Alva coberta de flores de amendoeira, ou o Solar de Mateus a emergir dum mar de corolas sortidas, é contemplar o inefável. Mas o fruto dos frutos, o único que ao mesmo tempo alimenta e simboliza, cai dumas árvores altas, imensas, centenárias, que, puras como vestais, parecem encarnar a virgindade da própria paisagem. Só em Novembro as agita uma inquietação funda, dolorosa, que as faz lançar ao chão lágrimas que são ouriços. Abrindo-as, essas lágrimas eriçadas de espinhos deixam ver numa cama fofa a maravilha singular de que falo, tão desafectada que até no próprio nome é doce e modesta – a castanha.
Assada, no S. Martinho, serve de lastro à prova do vinho novo. Cozida, no Janeiro glacial, aquece as mãos e a boca de pobres e ricos. Crua, engorda os porcos, com a vossa licença…

É destes que se tem de partir para chegar à trindade tradicional do reino: os presuntos, as alheiras e os salpicões.
Por alturas do Natal, começa a matança. Ao romper da manhã, a paz de cada povoado é subitamente alarmada. Um grito esfaqueado irrompe do silêncio. Dias depois desmancha-se a bisarma, e um pálio de fumeiro cobre a lareira.
Quem não comeu ainda desses manjares ensacados, prove… E há-de encontrar neles o sabor das invernadas passadas ao borralho enquanto a neve cai, o perfume das graças dadas por alma daqueles que Deus tem, a magia da história de João de Calais contada aos filhos, e uma ciência infusa de temperar, que vem desde que a primeira nau chegou à Índia.
Mas o panorama zoológico não se fica pelo animal de vista baixa que se desfaz em torresmos e chouriços. Passando pelo lobo do Eusébio Macário, que só por si vale um tigre do Kipling, pelo boi de Miranda, que só lhe falta falar, e pelo bicho-da-seda que de Bragança aveludou em tempos Ceca e Meca, temos ainda a perdiz, a fera da Mantelinha, que nenhum forasteiro deve deixar de ver.

Em Outubro, quando o sol ainda a espreguiçar-se de sono lava a cara na fonte de Casal de Loivos, certo perdigueiro, que sobe o monte colado ao chão, já com um aceno perfumado a fazer-lhe cócegas no nariz, pára de repente siderado. Manda-se-lhe dar a pancada. O navarro entra, e só então Sua Senhoria aparece.
Cabeça alta de quem olha o mundo de cima, peito largo aberto ao vento, pés seguros de almocreve.
– Pfrrruuu…u…u. Lá vai ela!
Quando o tiro lhe acerta e cai, parece uma deusa morta…
No cinto, ainda se lhe tem respeito…

A truta, que representa com dignidade e bravura o mundo da barbatana, é nos açudes que mostra o que é. Sobe por eles acima como os rapazes pelos mastros ensebados, e só com sofismas a pescam uns filósofos sem filosofia, que vale a pena observar, de cana em riste e saltão no anzol.
Quem for a Boticas, coma um peixinho e beba-lhe «vinho de mortos» em cima. Pelo que houver, fico. Acudo-lhe com o único remédio decente que se conhece para moela fraca – um quarto de Pedras ou Vidago, águas minerais que nascem perto.
A terra é de tal natureza que, não contente com as dádivas a céu aberto, encerra nas entranhas riquezas que não têm conto. Entra-se no ventre duma serra, e é ferro, é oiro, é chumbo, é estanho, é volfrâmio, é zinco, é urânio, é tudo quanto Vulcano forjou. Caldas, então, é um benza-te Deus. São famosas as de Carrelão, as de Moledo, as de Alfaião, as de Chaves, as de Carvalhelhos e as de Sabroso – porque todas elas fazem milagres perfeitos.
E vêm então peregrinos de muito longe – gente que arrebentou ou se envenenou a comer um boi e a beber um tonel – curar nelas o estômago, o fígado, a gota, os eczemas e a melancolia. Tomam-nas durante quinze dias. Ao cabo, regressam, de corpo e alma nova.

Os naturais é que raramente precisam delas, por serem homens de muita saúde e sobriedade.
Homens de uma só peça, inteiriços, altos e espadaúdos, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas do chão. Castiços nos usos e costumes, cobrem-se com varinos, croças, capuchas e mais roupas de serrobeco ou de colmo, e nas grandes ocasiões ostentam uma capa de honras, que nenhum rei! Usam todos bigode e alguns suíças.
E põem uma dignidade tal, um sentido tão profundo da pessoa humana, que é de a gente se maravilhar.

Às vezes agridem-se uns aos outros com tamanha violência que parecem feras. Mas olhados de perto esses nefandos crimes, vê-se que os motiva apenas uma exacerbação de puras e cristalinas virtudes, que só não são teologias porque Deus não quer.
Fiéis à palavra dada, amigos do seu amigo, valentes e leais, é movidos por altos sentimentos que matam ou morrem.
Ufanos da alma que herdaram, querem-na sempre lavada, nem que seja com sangue. A lendária franqueza que vem nos livros, é deles, realmente. Mas radica na mesma força interior que, levada à cegueira da exaltação, pode chegar ao assassínio. Bata-se a uma porta, rica ou pobre, e sempre a mesma voz confiada nos responde:
– Entre quem é!

Sem ninguém perguntar mais nada, sem ninguém vir à janela espreitar, escancara-se a intimidade duma família inteira. O que é preciso agora é merecer a magnificência da dádiva. Nos códigos e no catecismo o pecado de orgulho é dos piores. Talvez que os códigos e o catecismo tenham razão. Resta saber se haverá coisa mais bela nesta vida do que o puro dom de se olhar um estranho como se ele fosse um irmão bem-vindo, embora o preço da desilusão seja às vezes uma facada.
Dentro ou fora do seu dólmen (mania que eu tenho de chamar aos buracos onde vive a maioria) estes homens não têm medo senão da pequenez. Medo de ficarem aquém do estalão por onde, desde que o mundo é mundo, se mede à hora da morte o tamanho de uma criatura.

Acossados pela necessidade e pelo amor da aventura, aos vinte anos (se não tiver sido antes), depois da militança, alguns emigram para as Arábias de além-mar. Brasis, Áfricas e Oceanias. Metem toda a quimera numa saca de retalhos, e lá vão eles. Mourejam como leões, fundam centros de solidariedade humana por toda a parte, deixam um rasto luminoso por onde passam, e voltam mais tarde, aos sessenta, de corrente ao peito, cachucho no dedo, e com a mesma quimera numa mala de couro.
Gastam cem contos numa pedreira a fazer uma horta, controem um casarão com duas águias no telhado, e respondem com um ar manhosos a quem lhes censura um amor tão desvairado às berças:
– Infeliz pássaro que nasce em ruim ninho…
E continuam a comer talhadas de presunto cru.
Os que ficam, cavam a vida inteira. E, quando se cansam, deitam-se no caixão com a serenidade de quem chega honradamente ao fim dum longo e trabalhoso dia. E ali ficam nuns cemitérios de lívida desilusão, à espera que a lei da terra os transforme em ciprestes e granito.

Alegrias gratuitas têm poucas. Embebedam-se nas festas e nas feiras, batem a cana-verde nos dias grandes, e gozam os robertos e as vistas que levam de povo em povo um sofisma de ventriloquia e a irrealidade serôdia das terras do Preste João.

– Ó Zé Roberto:
Queres casar comigo, que sou uma rapariga bem boa?
Bem boa! Bem boa! Bem boa!
– Olha o «Vatícano», olha o «Vatícano», com as suas 365 janelas e o Papa a olhar a uma delas… Quem quer ver?

Nas romarias, verdadeiramente, não se divertem. Pagam nelas o dízimo espiritual ao santo ou à santa com quem têm contratos pelo ano fora, e fazem a barrela das suas relações humanas.
A capela da devoção fica no alto do mais alto monte que rodeia a freguesia. E eles sobem então pela serra acima, quer à vara do pálio, quer a alombar o andor, quer de joelhos, a abrir uma chaga de sofrimento no corpo pecador – mas sem tirar os olhos do inimigo com quem hão-de medir forças no arraial. Ao descer, vêm numa manta, esfaqueados.
Dessas mortes ficam pelos caminhos memórias de pedra com alminhas do purgatório a pedir orações, que são a História íntima do reino resumida em padre-nossos. A outra, toda feita de lendas e fantasia, tem o seu tombo no coração dos que são poetas, e conta-se nas fiadas.
Na loja dos bois, ao calor aconchegado da bosta quente a fermentar a palha, envolto na luz pacífica de uma candeia de azeite, o rapsodo mais velho começa:

– No tempo da Princesa Clarimunda…

À meia-noite o fuso pára nas mãos adormecidas das fiandeiras. Erguem-se todos.
Mas no dia seguinte chega-se ao fim. De Celtas, Iberos, Romanos, Moiros, etc. e tal, e dos do tempo dos afonsinos, os velhos dão pouca relação. Em todo o caso mostram os dólmenes do Alvão, a Porca de Murça, a ara do deus Aerno, os castros defeitos, os altares de Panóias, a ponte romana de Chaves e a Domus Municipalis de Bragança.
O tempo mudou os símbolos da fé, deliu as inscrições sagradas, e relegou para a penumbra da arqueologia o que foi vivo e útil. Por isso, olham todas essas relíquias numa espécie de melancolia esquiva. Renúncia incorformada, que, num desesperado esforço, de encontrar os secretos tesoiros da unidade eterna, às vezes os leva a meter um cartucho de dinamite nas pedras veneráveis, a ver se elas resistem à inquitação do presente.

É certo que há escolas pelo país a cabo onde as leis inexoráveis do perecível e do imperecível são explicadas. De uma sei eu em que certa palmatória de cinco olhos faz decorar tudo quanto no mundo se descobriu até à raiz quadrada.
Mas mesmo nos reinos maravilhosos acontece a desgraça de o povo saber duma maneira e as escolas saberem doutra. Acabado o exame da quarta classe, cada qual trata de sepultar sob uma leiva, o mais depressa que pode, a ciência que aprendeu.
A não ser o Senhor Varatojo, que dá sota e ás ao mais pintado doutor. Na inquebrantável decisão de levar tudo ao fim, na teimosia que, uma vez segura da sua verdade, não cede a nenhum argumento, e no gosto inquieto de conhecer, podia ter sido um novo Fernão de Magalhães, a dar a volta aos mundos de agora.
Mas como a pátria não convida os filhos para tais empresas, empregou-se na câmara, come do bom e do melhor, à custa de quem lho vai meter no bico, toca bandolim, e lê quantos romances se escreveram. Depois conta-os na farmácia, e pinta o diabo se alguém o desmente.

– Tenho a certeza matemática! – Grita congestionado.
E tem, porque sabe de cor as vírgulas e as peripécias. Outro dia chegou mesmo a ir a Paris, só para ver num parque público o banco onde uma heroína qualquer deu um beijo ao namorado. Entra esbaforido na estação da Vila, pede um bilhete, e aí vai ele. Chegou lá, não quis saber de mais nada:
– Faça favor: onde é o Bosque de Bolonha?
Olhavam-no todos como quem olha um fenómeno, mas sempre lhe disseram. Parecia um tiro pelas ruas a cabo.
Ao fim duma hora de caminho, chegou ao sítio. Examinou, calculou, andou, virou, tornou, até que deixou sair do peito um arranco de triunfo:
– Foi neste!
– Neste, o quê?!
Então ele explicou. Assombrados e cépticos, os de lá puseram-se a rir.

Felizmente que o romance estava escrito em francês…
E como alguém duvidasse, já não do juízo do homem, mas de tudo se ter passado mesmo, mesmo naquele banco, o Senhor Varatojo mostrou a página do livro, tirou do bolso do colete o relógio, e provou:
– A cena passa-se no dia 24 de Agosto, às quatro horas. Ora bem: estamos a 24 de Agosto e são quatro horas em ponto. O banco onde os dois se sentaram tinha sombra. não há mais nenhum com sombra. Portanto…
Meteu-se outra vez no comboio, cabeçudo, e retomou as suas funções, sentado à secretária, sempre com as virtudes do povo na ponta da língua, a garantir que Camilo é o cronista do Reino, e a confessar que vai todas as noites ao jardim da Carreira ouvi-lo sobre política, religião e literatura. Ainda não encontrou fonte onde bebesse com tanto gosto…

Os contribuintes pagam a décima e riem-se. Que diz o Senhor Varatojo?! O Camilo! O Camilo levou mas foi uma grande coça na Senhora da Azinheira, outra na Senhora da Saúde, outra na Senhora dos Remédios… Fazia-se fino!…
Engole em seco e muda de conversa. Como é também da mesma laia, capaz de cobiçar a mulher do próximo e varrer uma feira a estadulho, não insiste. Sabe muito bem que vive entre irmãos que não mudam de camisa para esbofetear o mais pintado, seja ele o autor do Amor de Perdição, mas que também lhe tiram o chapéu, caso o mereça.
Fracos em letra redonda, sabem todos honrar a grandeza verdadeira. E a prova é que o lá têm, a esse trágico inventor de tragédias, entronizado no coração das fragas, a receber o carinho eterno da terra onde foi menino e génio. Bateram-lhe realmente nas romarias, mas deram-lhe o maior bem que se pode ter:
O nome de Transmontano, que quer dizer filho de Trás-os-Montes, pois assim se chama o Reino Maravilhoso de que vos falei.

Comboio e Natureza – I

O Projecto Comboio e Natureza – resultado de um protocolo de colaboração entre a CP-Comboios de Portugal e a Liga para a Protecção da Natureza – visa estimular a descoberta das áreas naturais do país como espaços de turismo, bem como a adopção de comportamentos ambientalmente sustentáveis, através de percursos terrestres em combinação com o uso da bicicleta.

Existem neste momento três rotas naturais:

Da Linha do Douro ao Parque do Douro Internacional, Entre o Mar e a Terra
De comboio a caminho do Sado
Da Linha Azul às Planícies de Castro Verde

En uno de los repliegues de ese terreno se ocultan los hondos tajos, las encrespadas gargantas, los imponentes cuchillos,
los erguidos esfayaderos, bajo los cuales, allá, en lo hondo, vive y corre el Duero.

D. Miguel de Unamuno, “Las Arribes del Duero”

No Nordeste Transmontano, os passeios pedestres e de bicicleta são o ponto de partida para descobrir a fronteira natural entre Portugal e Espanha.

Na primeira etapa, parte-se de comboio desde o Porto – pela margem do Douro, onde as quintas e os solares rodeados de vinhas, são molduras vivas na paisagem – até ao Pocinho.


A
segunda etapa, de bicicleta, tem três destinos possíveis: Miranda do Douro, Freixo de Espada à Cinta e Figueira de Castelo Rodrigo.

Os caminhos pedestres serão: entre Miranda do Douro e São João das Arribas; entre o Vale da Ribeira do Mosteiro a partir de Freixo de Espada à Cinta; o último, entre a Albufeira de Santa Maria de Aguiar e Santo André das Arribas.

O Vale do Douro, com as suas arribas rochosas, é muito rico em flora e fauna. Os quatro concelhos assinalados no mapa representam 86 mil hectares e incluem nos seus limites 44 povoações, num total aproximado de 30 mil habitantes.

A actividade agrária constitui a parte em que o homem participa – com os amendoais, os olivais, as vinhas e as searas – no desenho da paisagem.
O património cultural é ainda enriquecido com o artesanato e o dialecto mirandês.

Da comunidade de aves , têm aqui o seu habitat: a cegonha preta, o grifo, a águia-real, o milhafre-real e o abutre do Egipto; Alimentam-se nos campos de cereal, nos lameiros, nos soutos, nos carvalhais, nas vinhas e nos bosques de azinheira, em duas unidades ecológicas distintas: as arribas e as planícies.

As caminhadas – calmas, como convém – requerem apenas um par de botas e uma bicicleta apropriadas.
Acessórios como binóculos e/ou máquina fotográfica são essenciais, também.

gota a gota, no culto do vinho


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É a solução para a rega das vinhas, em anos de seca como este. Com a produtividade mais baixa dos últimos cinco anos, as vindimas estão a dar boa fruta, com muita côr, concentrada – certamente teremos grandes vinhos (dificilmente excepcionais, como em 2004) – mas em quantidade insuficiente para assegurar a sustentabilidade de muitas quintas, que passam por alguma aflição.
Esperemos que, apesar das dificuldades, não caiam na tentação de trazer mosto de Espanha para aumentar a produção!
Protejam as nossas uvas, se faz favor. A perda de qualidade seria uma pena!


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Nesta curva – onde o Côa encontra o Douro – existe uma ponte ferroviária seguida de um apeadeiro, desactivado há alguns anos.
É para este local de excepção que está projectado o futuro Museu Arqueológico do Vale do Côa, disse-nos a guia quando fizemos o percurso da Penascosa, com temperaturas superiores a 40 graus!