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o problema mente-corpo

PARA QUE SERVEM OS SENTIMENTOS

Poder-se-ia argumentar que as emoções sem sentimentos seriam mais do que suficientes para a regulação da vida e para a promoção da sobrevivência. Poder-se-ia argumentar que representar os resultados da emoção não seria de todo necessário para a sobrevivência. Porém, não é esse o caso. Na orquestração da sobrevivência é extremamente valioso ter sentimentos. As emoções são úteis em si mesmas, mas é o processo do sentir que alerta o organismo para o problema que a emoção começou a resolver. O processo simples de sentir começa por dar ao organismo o incentivo para se ocupar dos resultados da emoção (o sofrimento começa pelos sentimentos, embora seja realçado pelo conhecer, e o mesmo se pode dizer acerca da alegria). O sentir constitui, também, a pedra angular para a etapa seguinte – o sentimento de conhecer que sentimos. Por sua vez, o conhecer é a pedra angular para o processo de planeamento de respostas específicas e não estereotipadas que podem, quer complementar uma emoção, quer garantir que os ganhos imediatos obtidos pela emoção possam ser mantido ao longo do tempo. Por outras palavras, «sentir» os sentimentos prolonga o alcance da emoção, ao facilitar o planeamento de formas de resposta adaptativas, originais e feitas à medida da situação.
É altura de concluir com uma simples reflexão: conhecer um sentimento requer um sujeito conhecedor. Ao procurar uma boa razão para justificar a persistência da consciência ao longo da evolução, talvez se possa dizer que a consciência triunfou porque os organismos que a possuíam podiam «sentir» os seus sentimentos. Sugiro que os mecanismos que possibiltam a consciência prevaleceram porque conhecer as suas emoções foi coisa bem útil para os organismos de o fazer. E como a consciência persistiu como característica biológica, acabou por se tornar aplicável não apenas às emoções, mas também aos numerosos estímulos que as punham em acção. A consciência acabou por dar a conhecer toda uma gama de acontecimentos sensoriais.

Texto retirado do livro “O Sentimento de Si“, de António Damásio
desenho de Luis Royo