Archive for the ‘ Poesia ’ Category

A tua morte é sempre nova em mim.
Não amadurece. Não tem fim.
Se ergo os olhos dum livro, de repente
tu morreste.
Acordo, e tu morreste.
Sempre, cada dia, cada instante,
a tua morte é nova em mim,
sempre impossível.

E assim, até à noite final
Irás morrendo a cada instante
da vida que ficou fingindo vida.
Redescubro a tua morte como outros
descobrem o amor,
porque em cada lugar, cada momento,
tu estás viva.

Viverei até à hora derradeira a tu morte.
Aos goles, lentos goles. Como se fosse
cada vez um veneno novo.
Não é tanto a saudade que dói, mas o remorso.
O remorso de todo o perdido em nossa vida,
coisas de antes e depois, coisas de nunca,
palavras mudas para sempre, um gesto
que sem remédio jamais teve destino,
o olhar que procura e nunca tem resposta.

O único presente verdadeiro é teres partido.

excerto do poema A TUA MORTE EM MIM, de Adolfo Casais Monteiro

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O nono soneto

Quando a foder aprendeste, ensinei-te
A foder, tal que de mim esquecesses
E teu prazer do meu prato comesses
Como se amor fosse, não eu, o teu deleite.

Disse-te: mal não faz, quando me esqueces
Como se doutro te viesse o derriço!
Eu não me dou a mim, dou-te é um piço
Não é por ser meu que te traz benesses.

Se bem pretendia que te metesses
Na própria pele, não era nada a intenção
Que numa te tornasses, que não pondera
Quando, por acaso, um lhe está à mão.
Queria que de mil homens não carecesses
Para saberes o que do homem te espera.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Inútil Paisagem


Mas pra quê

Pra que tanto céu
Pra que tanto mar, pra quê

De que serve esta onda que quebra
E o vento da tarde
De que serve a tarde
Inútil paisagem

Pode ser
Que não venhas mais
Que não voltes nunca mais

De que servem as flores que nascem
Pelos caminhos
Se o meu caminho
Sozinho é nada

Recordando António Carlos Jobim e Elis Regina, também nesta preciosidade

demonstração do resultado do exercício

Salmo XXVI – in “Heráclito Cristiano y Segunda Arpa a Imitación de David”, de Francisco de Quevedo y Villegas (1580-1645),
seguido de tradução de José Bento in “Antologia da Poesia Espanhola das Origens ao Século XIX”
Gravura de José de Ribera: São Jerónimo e o Anjo, 1626

Después de tantos ratos mal gastados,
tantas obscuras noches mal dormidas;
después de tantas quejas repetidas,
tantos suspiros tristes derramados;

Después de tantos gustos mal logrados
y tantas Justas penas merecidas;
después de tantas lágrimas perdidas
y tantos pasos sin concierto dados,

Sólo se queda entre las manos mías
de un engaño tan vil conocimiento,
acompañado de esperanzas frías.

Y vengo a conocer que en el contento
del mundo, compra el Alma en tales días,
con gran trabajo, su arrepentimiento.

Depois de tantos dias esbanjados,
tantas escuras noites mal dormidas;
depois de tantas queixas repetidas,
tantos suspiros tristes derramados;

depois de tantos gozos malogrados
e tantas justas penas merecidas;
depois de tantas lágrimas perdidas,
de tantos passos sem acerto dados,

resta apenas em minhas mãos esguias
de um engano tão vil conhecimento,
acompanhado de esperanças frias.

E sei enfim que, no contentamento
do mundo, a alma compra nesses dias,
com grande esforço, seu arrependimento.

Felizmente há Luar…

Da minha cegueira branca
Vejo uma imagem no negrume da noite.
Esforço-me, desinteressadamente,
por lhe dar um nome.
Todos os nomes são iguais
às imagens que vejo à noite.
Tudo é igual a nada.
Amanhece, agora. Quase me esqueço!
Como te chamas,
Imagem que não conheço?
Não me peças para lembrar,
Adormeço.

imagem: Moritz von Schwind – Adeus ao Amanhecer, 1859

Estudo sobre o Belo e o Grotesco

Hoje deitei-me junto a uma jovem pura
como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.

Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.

Seu peito como um fogo de duas chamas
ardia em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.

Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas extendidas
e oculto fogo.

gravura Sleeping Nymph and Shepherd – 1645-50, de Jan-Gerritsz-van-Bronchorst
poema Angela Adonica, de Pablo Neruda

Canção de Baal

Se a mulher tem coxas gordas,
na relva dou-lhe um encosto

À saia e calça arejo as bordas,
ao sol – porque é assim que eu gosto.

Se a mulher morde feliz,
na relva eu esfrego o rosto

O ventre, os dentes e o nariz:
limpinhos – que é assim que eu gosto

Se a mulher entra num jogo fogoso,
mas descomposto

Eu rio e dou-lhe a mão, logo:
amável, que é assim que eu gosto.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso