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José Bento

Na última vez que nos cruzámos, José Bento confessava que dificilmente voltaria a Dom Quixote.
Traduzir uma obra destas, mais que hercúlea, é uma tarefa impossível; sempre que lhe pegasse, alteraria qualquer coisa

Seis meses depois, é com grande satisfação que recebo a notícia da atribuição do Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura ao roncinante amigo.

Como pequena homenagem, ficam os links para alguns poemas de José Bento publicados no Luminescências:
Este mar me detém, mas nunca saberei…
Como diluir as estrias que traem tua idade…
Para Botticelli
Porque o Fim de um Caminho…

Sobre as duas traduções de Don Quijote de la Mancha, escreveu João Dionísio da Universidade de Lisboa:

Em síntese, as duas traduções parecem orientar-se de modo bastante diferenciado nas duas facetas observadas. Quanto ao Quixote de 1605, o texto de que parte a tradução de Serras Pereira será talvez mais inovador e o de José Bento possivelmente mais conservador. Quanto ao código bibliográfico, a roupagem da tradução Serras Pereira quer dar a entender que estamos perante um documento com certificado de origem, ou de uma certa origem; a da tradução José Bento sugere um texto com certificado de destino.

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Legenda para uma fotografia

Como diluir as estrias que traem tua idade
ao irromper do que não queres lembrar,
a não ser quando tudo te repudia tanto
que em ti embebes as tuas espadas,
ansiando remir o que não clama resgate?
E ris, sorris: corola vesperal a desfolhar nas faces
um esmalte falaz que teus olhos recusam.

Injuria-te a luz, embora te defendas
num recanto que as lâmpadas receiam:
aí a música amaina, extenuada,
permite que te envolva
uma outra que de ti se evola
num tempo de que foste expulsa.


Não são máscaras esse carmim viscoso,
os cabelos sufocados em adornos grotescos
e em tinta,
o debrum crepuscular das pálpebras,
a cilada sedenta de uma boca
constrangida a abdicar da força da mentira.
São em ti apelos transparentes:
por eles te denuncias e somente
suplicas ser, sem precisares depor
sobre teus desígnios, teus actos.

Que poderás dizer que todos não saibam?
O que és não o partilharás ao exprimi-lo.
Tuas palavras para os outros significam
o mesmo que silêncio. E os teus gestos
só para ti vertem um conteúdo.

Mas reges a magia de discretos sinais:
uma pulseira que distancia tua mão, um aroma
a convidar para um quarto clandestino,
um leque a ondular sobre o teu peito
o adejo de uma dança nupcial.

Detém-te nesse lugar, se ninguém te convida.
Na noite, tua cama pródiga, um esquife
que te espera sem pressa.
Goya ou uma objectiva cruel
iludem-se quando tentam perpetuar-te
ao tornar-te motivo de uma tela
tão perecível como tu.

Mas de nada te acusam:
apontam-te ao meu discurso desatento,
a alguém que deseje
conhecer o corpo turbado que dissipas.

Poema de José BentoSilabário
Fotografias de Pierre Molinier

A não perder – O cavaleiro da triste figura..

José Bento vai estar presente hoje na Feira do Livro, para autografar a sua última menina dos olhos!
Quem puder.. aproveite!
Parece curiosa a comparação entre as duas monumentais edições de Don Quixote de Cervantes, agora disponíveis.

A de José Bento, com ilustrações de Lima de Freitas, editada pela Relógio D’ Água, e a de Miguel Serras Pereira, com ilustrações de Salvador Dalí, edição da Dom Quixote.
Mais sobre a obra, aqui!

Verei por ti

Unamuno e Gustavo Adolfo Bécquer representam dois dos expoentes da poesia espanhola do final do século XIX. Inicia-se com eles o Modernismo, que em Portugal principiou com a revista Orpheu (em 1915).
Contudo, Miguel de Unamuno não encaixava no Movimento; exaltava a pátria, a sua Espanha que lhe doía.

Verei por ti ilustra a grandeza espiritual deste poeta.

«Desconheço-me», dizes, mas olha, tem por certo
que a conhecer-se começa o homem quando clama
«Desconheço-me» e chora;
a seus olhos então o coração aberto
da sua vida encontra a verdadeira trama;
é então sua aurora.

Não, ninguém se conhece, até que o toca
a luz de uma alma irmã que do eterno chega
e seu fundo ilumina;
teu íntimo sentir floresce em minha boca,
tens a vista em meus olhos, vê por mim, minha cega,
vê por mim e caminha.

«Estou cega», dizes-me; apoia-te em meu braço
e alumia com teus olhos nossa áspera via
perdida no futuro;
verei por ti, confia; tua vista é este laço
que a ti me atou; meu olhar a garantia
de um caminhar seguro.

Que importa que os teus não vejam o caminho,
se dão luz aos meus e me iluminam todo
com seu tranquilo lume?
Apoia-te em meus ombros, confia-te ao Destino,
verei por ti, ó cega, afastar-te-ei do lodo,
levar-te-ei ao cume.

E ali, na luz envolta, abrir-se-ão teus olhos,
verás como esta senda atrás de nós, distante,
se perde na distância
e nela desta vida os míseros restolhos,
e aos reflexos do céu abrir-se-nos, radiante,
o que hoje é esperança.

Miguel de Unamuno (1864-1936)
in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea
Selecção e tradução de José Bento

Sublimação!

Que forma tão sentida de admirar a Renascença e os seus vultos!



Sandro Botticelli (1445-1510)

Giovanna degli Albizzi Receiving a Gift of Flowers from Venus – 1486

Fresco destacado e colocado em tela – 211 x 284 cm

Museu do Louvre, Paris

Para Botticelli

Pressinto que o mundo cresce de teus dedos

quando num clarão mortal se rasgam asas

e faces lívidas de anjos

choram suas raízes arrancadas do chão.

Quando o vento grita em teus cabelos

que não é o mar a seara que se ondula.

Quando um perfil destrói em si a noite

e o teu peito,

onde límpida era a sua côr.

Quando uma árvore frutifica a sua solidão

e se ilumina

com um súbito canto

ou um vulto quase irreal de ser tão breve.

Quando, de olhos sangrentos,

sentes nitidamente o anoitecer

e exausto abandonas a cabeça a mãos ausentes:

náufrago de veias que prolongam a terra,

transfigurado no rosto

onde a manhã te anuncia o seu regresso.

in Silabário, de José Bento

A esperança num futuro intemporal

Antes que tú me moriré: escondido

en las entrañas ya

el hierro llevo con que abrió tu mano

la ancha herida mortal.

Antes que tú me moriré: y mi espíritu,

en su empeño tenaz,

sentándose a las puertas de la muerte,

allí te esperará.

[…]

Allí donde el sepulcro que se cierra

abre una eternidad…

¡ Todo lo que los dos hemos callado

lo tenemos que hablar !




—————————————




Antes de ti eu morrerei: oculto

no peito levo já

o ferro com que tuas mãos abriram

larga ferida mortal.

Antes de ti eu morrerei; meu espírito,

num anseio tenaz,

ante as portas da morte irá sentar-se,

a esperar-te lá.

[…]

Ali onde o sepulcro que se fecha

abre uma eternidade…

Tudo quanto nós dois sempre calámos

teremos de falar!

Gustavo Adolfo Bécquer (1836-1870)

Rimas – XXXVII

Tradução de José Bento

O Mar

Um único ser, mas não existe sangue.

Uma carícia apenas, morte ou rosa.

Vem o mar e reúne as nossas vidas,

sozinho ataca e reparte-se e canta

em noite e dia e criatura e homem.

A essência: fogo e frio: movimento.

in Antologia de Pablo Neruda

tradução de José Bento