Archive for November, 2007

À Sombra da Luz

nos meus pensamentos sempre as palavras lutam duas a duas pela verdade
palavras se metem dentro de outras palavras querendo ideias
sou uma caixa de vários lados com vários cantos com duas sombras
uma escura que nasce da clara outra clara que nasce da escura
a luz cintila e a sombra dorme a sombra estatela-se e a luz ergue-se
nasce cada palavra dentro de outra palavra

Fernando Lemos

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Método Isopático


[…]
Que delírios estrebuchavam os nossos corpos doidos… como eu me sentia pouca coisa quando ela se atravessava sobre mim, iriada e sombria, toda nua e litúrgica…
caminhava sempre aturdido do seu encanto – do meu triunfo.
Eu tinha-a! Eu tinha-a!… E erguia-se tão longe o meu entusiasmo, era tamanha a minha ânsia que às vezes – como os amorosos baratos escrevem nas suas cartas romanescas e patetas – eu não podia crer na minha glória, chegava a recear que tudo aquilo fosse apenas um sonho.
[…]

in A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro
Madona fotografada por Helmut Newton para a VanityFair

Canção de Baal

Se a mulher tem coxas gordas,
na relva dou-lhe um encosto

À saia e calça arejo as bordas,
ao sol – porque é assim que eu gosto.

Se a mulher morde feliz,
na relva eu esfrego o rosto

O ventre, os dentes e o nariz:
limpinhos – que é assim que eu gosto

Se a mulher entra num jogo fogoso,
mas descomposto

Eu rio e dou-lhe a mão, logo:
amável, que é assim que eu gosto.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

à la recherche du temps perdu…

Cupido não domina o seu destino. Enquanto o amor esquecido dorme, os amantes não podem enfrentar as suas paixões, estão perdidos.
Mas, mesmo que no passado o arco do amor tenha sido quebrado , Cupido continua a possuir as setas que o farão estremecer de novo.

Peut-être il a fallu que le temps se perde… Peut-être faut-il respecter le temps qui a voulu se perdre… Le passé ne peut pas se récupérer. Le présent cesse de l’être à tout instant… Le futur c’est le seul temps qui reste… même s’il n’est pas, puisque quand on y arrive c’est déjà présent…

Bonjour, Marie…

30 anos de Oxygene

Já passou assim tanto tempo? Lembro-me perfeitamente do dia em que fui à RCA na Rua do Carmo comprar o álbum e correr para casa, como acontecia sempre com as novidades que me interessavam. Ainda hoje recordo o cheiro das capas e do vinil…

Sempre me impressionou a meticulosa organização dos espectáculos de Jean Michel Jarre; Brutal, imaginar um milhão de pessoas na China, em Houston, em Paris…

Tive oportunidade de o ver no concerto de Sevilha, em 1993, com o palco montado no rio. Claro que não se comparou a nenhum dos anteriores em assistência, mas a grandiosidade das produções encanta, mesmo a um não apreciador de música electrónica.

A par de Oxygene (é óbvio que irei a correr comprar a gravação comemorativa dos 30 anos, na mesma rua mas um pouco mais acima, no sítio do costume), que considero uma obra-prima, adoro tanto o Equinoxe como os famosos Concertos na China, o bizarro Zoolook como Metamorphoses. Todos os que aqui estão reproduzidos!

Palavra que ainda ontem me ocorreu fazer um post sobre Jean Michel Jarre. A entrevista de Nuno Galopim publicada hoje no Dn, serviu de mola, claro!

Como descobriu a música electrónica?

Fiz primeiro o ensino clássico, depois passei por grupos de rock. E, através de um colega de liceu entrei num grupo mais experimental ligado à televisão francesa e que era dirigido pelo Pierre Schaeffer, que foi o inventor da música concreta. Foi ele quem me ensinou que a música não era apenas feita de notas e acordes, mas também de sons. E que a diferença entre o ruído e o som musical nasce da intervenção do músico.

Essa era, contudo, uma música essencialmente experimental. A sua, depois, seguiu outro rumo…

Dez anos antes de Oxygene trabalhava nesses domínios. Fiz vários discos falhados, música de filmes, produzi artistas… Foram trabalhos práticos, mas sabia que uma outra coisa me chamava.

Como explica a mudança?

Fiz Oxygene perante uma espécie de indiferença geral. Em casa, numa cozinha transformada em estúdio caseiro, minimalista, com equipamento antigo… E já dizia para mim que, um dia, o tinha de voltar a gravar com equipamento a sério.

Daí esta nova gravação?

Precisamente. Quando a alta definição apareceu, e sob o pretexto do 30.º aniversário, senti que tinha chegado o momento.

Em meados dos anos 70, a música electrónica não experimental que se ouvia era, sobretudo, a alemã. Sentia que aquele não era o seu caminho?

A pop é uma música de partilha. Mas, na época, a música electrónica era sobretudo laboratorial. Ouvia o que acontecia, mas sugeria- -me paradoxos. O primeiro que ouvi foi Walter Carlos, que sugeriu a muitas pessoas uma ambiguidade sobre os sintetizadores. Ou seja, viam-nos como instrumentos que procuravam imitar os sons de outros. E assim se passava ao lado das verdadeiras potencialidades do instrumento… A seguir chegam os alemães, que faziam uma espécie de apologia da máquina. Usavam a música electrónica de uma forma expressionista, mecânica. Sobretudo os Kraftwerk (o que não impede que adore o que fizeram). Mas era uma música fria, robótica, desumanizada.

Procurava, antes, uma ideia de humanidade na electrónica?

Para mim aqueles eram os instrumentos mais sensuais que conhecia. Podia com eles fazer som como quem faz culinária. E procurava fazer uma música que não vivesse da repetição de acontecimentos, que não fosse automática. Em Oxygene não há sons que se repitam, não há sequenciadores.

Como numa peça sinfónica?

Mais tarde reflecti sobre essa afinidade com a música clássica. A composição de Oxygene é simples, mas longe de ingénua. Era diferente do que se fazia na música electrónica da época. E essa talvez seja uma das razões objectivas que justificam o seu sucesso. Há ali qualquer coisa na qual as pessoas se encontraram de uma forma sensual e não apenas intelectual.

Muitos associaram esta música a ambientes de ficção científica.

De facto, mas não eu. Gosto de ficção científica. Mas a minha música não a ligo ao espaço sideral. Antes ao espaço vital, ao que nos envolve. É uma música mais da biosfera que da estratosfera. Daí o facto de, ao longo dos anos, ter feito tantos trabalhos ligados a questões ambientais, com uma mensagem ecologista sem querer dar lições como outros têm feito. O artista deve passar mensagens do ponto de vista emocional e não dogmático.

Esperava o sucesso que o álbum obteve então?

De modo algum! Aquela música foi recusada por quase todas as editoras. Estávamos em tempo do punk e do disco… Não sabiam que música era aquela, sem cantor, sem single. Era um ovni para a produção da época. A minha própria mãe perguntava-me porque dei o nome de um gás a um disco… Depois do sucesso, o que era negativo virou positivo. O facto de ser francês funcionou como exotismo.

Como nasceu a sua relação com a música ao vivo em eventos ao ar livre. Outro “exotismo”?

Esta é uma música que nem é do espaço estratosférico nem da cave (como o rock). É da biosfera, do espaço público. Além disso, vivo obcecado pelo conceito do one off, do momento que não se repete.

Porque não deu ainda concertos em Portugal?

Já esteve para acontecer três vezes. Uma no Terreiro do Paço, outra na Expo, esta em Lisboa. E houve planos para o Porto. Mas nenhum se concretizou ainda. E tenho de tocar em Lisboa um dia. A luz da cidade lembra-me a de Lyon, onde nasci.

Brisa de Outono

Depois de em Maio ter descoberto o prodigioso Lang Lang que, soube ontem via Mago da Lua, participa no novo trabalho de Mike Oldfield, estou encantado com a jovem violinista Sarah Chang. Os samples das Quatro Estações disponíveis aqui dão uma ideia da frescura que Sarah empresta às suas interpretações. Maravilhosa!
De Sarah Chang, que grava em exclusivo para a EMI, há mais de um mês que não encontro nada disponível no sítio do costume.. nem em Lisboa, nem no Porto… e o Natal à porta… 😉

Sarah Chang - Vivaldi - The Four Seasons - visit www.changvivaldi.com

Sarah Chang é mundialmente reconhecida como uma das artistas mais cativantes e dotadas da actualidade. Um dos mais extraordinários prodígios de sempre, é hoje uma jovem artista cujo conhecimento musical, virtuosismo e emocionalidade continuam a surpreender. Apresentando-se regularmente nos principais centros musicais da Europa, da Ásia e do continente americano, colaborou com muitas das grandes orquestras mundiais, incluindo a Filarmónica de Nova Iorque, a Orquestra de Filadélfia, a Sinfónica de Boston, a Orquestra de Cleveland, a Filarmónica de Berlim, a Filarmónica de Viena, as principais orquestras de Londres e a Orquestra do Real Concertgebouw de Amesterdão.

Sarah Chang colaborou com maestros de renome, como Daniel Barenboim, Sir Colin Davis, Charles Dutoit, Bernard Haitink, James Levine, Lorin Maazel, Kurt Masur, Zubin Mehta, Riccardo Muti, André Previn, Sir Simon Rattle, Leonard Slatkin, Michael Tilson Thomas e David Zinman. Deu recitais no Carnegie Hall, no Kennedy Center de Washington, no Orchestra Hall de Chicago, no Symphony Hall de Boston, no Barbican Centre de Londres, na Philharmonie de Berlim e no Concertgebouw de Amesterdão.

No domínio da música de câmara, Sarah Chang colaborou com destacados artistas, como Pinchas Zukerman, Wolfgang Sawallisch, Vladimir Ashkenazy, Yefim Bronfman, Martha Argerich, Leif Ove Andsnes, Stephen Kovacevich, Yo-Yo Ma, Lynn Harell, Lars Vogt e Isaac Stern. Na temporada passada actuou em sexteto na Suíça e na Itália com membros da Filarmónica de Berlim e da Orquestra do Concertgebouw, culminando numa actuação na Philharmonie de Berlim.

A presente temporada inclui uma digressão europeia com a Sinfónica de Pittsburgh e o maestro Hans Graf e uma digressão americana com a Filarmónica de Londres, sob a direcção de Kurt Masur. Apresenta-se ainda com a Orquestra do Tonhalle de Zurique, a Filarmónica de Israel e as Sinfónicas de Los Angeles, São Francisco, Houston, Milwaukee e Nova Jersey. Realiza também duas extensas digressões de recitais na Europa e nos Estados Unidos da América.

Sarah Chang grava em exclusivo para a EMI Classics. Os seus discos incluem, entre outras edições: «Fire and Ice», um álbum de pequenas peças populares para violino e orquestra, gravado com a Filarmónica de Berlim, sob a direcção de Placido Domingo; um disco de música de câmara para cordas (Sexteto de Dvorák e Souvenir de Florence de Tchaikovsky), com instrumentistas da Filarmónica de Berlim; o Concerto para Violino de Dvorák, com a Sinfónica de Londres e Sir Colin Davis; o Quinteto com Piano de Dvorák, com Leif Ove Andsnes, Alex Kerr, Georg Faust e Wolfram Christ. Gravou ainda um CD preenchido com sonatas de Ravel, Saint-Saëns e Franck, em colaboração com o pianista Lars Vogt.

De ascendência coreana, Sarah Chang nasceu em Filadélfia e começou a estudar violino aos quatro anos de idade. Aos oito anos foi ouvida em audição por Zubin Metha e Riccardo Muti, o que lhe permitiu estrear-se, em pouco tempo, com a Filarmónica de Nova Iorque e a Orquestra de Filadélfia. Estudou na Juilliard School com Dorothy DeLay.

Em 1999, Sarah Chang foi distinguida com o Prémio Avery Fischer, um dos mais prestigiantes prémio atribuídos a instrumentistas. Recebeu ainda os prémios «Jovem Artista do Ano» da revista Gramophone e o «Schallplattenpreis» da revista alemã Echo. Foi distinguida como «Newcomer of the Year» no International Classical Music Award, em Londres, e recebeu o prémio coreano «Nan Pa». Em 2004, Sarah Chang tornou-se no mais jovem artista a receber o prémio do Hollywood Bowl Hall of Fame. Em Julho de 2005 recebeu o Prémio Internacional da Accademia Musicale Chigiana.

Fonte: F.C.Gulbenkian

Felizmente há Luar…

Não vou tecer grandes considerações sobre os motivos vários que me têm afastado da bloga. Este mês, o Luminescências ultrapassou os 500.000 visitantes. Terá pouco significado para muitos blogs, para mim representa uma responsabilidade. Sei que alguns dos amigos terão já ouvido o requiem… mas não! Preciso continuar. Por mim… e pelos amigos, esses cuscos, que têm a simpatia de volta e meia vir espreitar. Gosto de partilhar as emoções, os gostos, a vida. Desculpem lá qualquer coisinha.

Vamos ao que interessa. Com um intervalo de 48 horas, duas noites que serão para recordar: Jan Garbarek dia 11 na Culturgest e Ahmad Jamal dia 13, no CCB. E o mais extraordinário é que ambos estarão presentes na edição deste ano do Guimarães Jazz. C`um camandro!!!


O músico nórdico, autor do disco que emprestou o nome a este blog será, salvo erro, a quarta vez que vejo em Portugal; O que não estava de todo nas minhas cogitações era ter o privilégio de ver ao vivo um dos meus pianistas favoritos. Sou mesmo um gajo com sorte!