Archive for July, 2007

Tu és a minha música. A maior e a mais bela de todas.

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

Gravura “O Violoncelista” de Amedeo Modigliani
poema de Eugénio de Andrade

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E porque hoje é Quinta…

Depois de alguma intermitência nas escapadelas, à de hoje não há como fugir.
Paulo Curado, já aqui referido, é um dos nomes importantes da cena jazz, não só pelo impressionante currículo enquanto instrumentista e compositor, como também porque esta coisa da improvisação no jazz tem muito que se lhe diga, e ele tem muito para contar…

Esta noite constituirá porventura um dos pontos altos destas sessões de verão na Cafetaria do CCB.

Fall of the Damned

Com visita guiada por Anísio Franco e José Alberto Seabra Carvalho, que nos oferecem uma descida ao Inferno, tema tão caro à administração desta casa…
Hoje às 18:00, no Museu Nacional de Arte Antiga

Óleo sobre madeira de carvalho
Proveniência conventual desconhecida

É a mais antiga representação autónoma do Inferno na pintura portuguesa. Obra misteriosa e inquietante, a sua iconografia incorpora, pelo menos, dois aspectos inovadores no contexto da arte portuguesa do início do século XVI. Por um lado, a evidência na representação da nudez feminina, bem exemplificada nos três corpos dependurados que devem simbolizar a Vaidade e a Soberba, ou no impositivo casal enlaçado que no primeiro plano, à direita, personifica a Luxúria. Por outro lado, o modo como se figura o entronizado regente desta infernal morada, um Lúcifer de rosto oculto por máscara, ceptro em forma de trompa e envergando toucado e fato de coloridas plumas, vestimenta que tem suscitado a hipótese de se tratar de um atributo de identidade ameríndia ou mesmo brasileira (o que possivelmente significaria encarar o recém-descoberto indígena sul-americano não como um “bom selvagem” mas como uma personificação do Mal).

A pintura recorre a um reportório medieval de referências teológicas cristãs, propondo uma imagem do Inferno como inventário de torturas incessantes, lugar de suplício e condenação eterna dos que incorrem nos Pecados Capitais, sem distinção do seu estado ou condição social. Para além dos já indicados, identificam-se ainda, do lado esquerdo da composição, as penas infligidas pela Avareza (o avarento é obrigado a engolir moedas, cruzados portugueses do reinado de D. Manuel) e as que respeitam à Gula, réprobo a quem um diabo, com aspecto de bode, obriga a ingerir vinho vertido de um odre em forma de porco. O exacto sentido moralizante de outros suplícios, na sua provável relação com os sete pecados capitais, é, porém, mais dubitativa. Assim sucede com um motivo central da representação, um grande caldeirão onde penam cinco pecadores, dois deles tonsurados, prefigurando possivelmente a Inveja. Neste caldeirão, que replica a forma circular da “boca” do inferno por onde caem os condenados, destaca-se um frade franciscano que parece aceitar melancolicamente o suplício, o único que nesta concentrada e tumultuosa composição surge indiferente ao diabólico vórtice, de trevas e chamas, que o rodeia.

A pintura só está documentada a partir de meados do século XIX, no acervo da Academia de Belas Artes de Lisboa proveniente da extinção dos conventos de frades, em 1834.

Arcade Fire, o melhor concerto do Festival

Peço desculpa pela violação e pela má qualidade do áudio.
Circulam no YouTube alguns melhorzinhos…

A surpresa do primeiro dia foram os Stone Sour, muito consistentes ao vivo. Satriani, ao contrário do que li nesta crítica idiota, foi fantástico na interacção com o público e muito competente, como se esperava. De Metallica, gostei relativamente, pois o alinhamento não me pareceu muito feliz. Também, dificilmente em Portugal eles poderão voltar a fazer um concerto tão bom como o de 1993 em Alvalade. Apesar disso, Metallica são a melhor banda de Heavy e o resto é conversa. Não soube muito bem foi ter levado um pontapé nos tintins no meio do mosh, mas também ninguém me obrigou a meter-me naquele granel…
Desculpa lá, miúda! Pode ter sido o melhor concerto da tua ainda curta vida, mas os Arcade foram os reis do Festival, mai nada!

No segundo dia, os Magic Numbers foram entretidos, os Bloc Party (sem surpresa) puseram o pessoal aos pulos e finalmente a oportunidade de ver a melhor banda da actualidade: Os canadianos Arcade Fire são um prodígio!

Ao terceiro dia conheci Maximo Park e os ressuscitados e cheios de energia The Jesus & Mary Chain. A fechar, os LCD Soundsystem, que personificam a body music, num grande concerto!

No último dia, TV On The Radio, Scissor Sisters (bah!), Interpol (finalmente a oportunidade de ver uma banda de que tanto gosto) e, para acabar em festa, Underworld – voltem rapidamente que a rapaziada agradece.

Amor eterno

Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,
são eternos como é a natureza.

poema de Pablo Neruda
gravura de René Magritte

ao domingo é dia de limpeza

Algum dia tinha de ser…
E hoje parece-me um dia tão bom como outro qualquer para libertar espaço no disco rígido.

Agora, vou dedicar-me à impermeabilização do miocárdio. Até jazz…

Postais de Portugal – Algarve