proposta desalinhada


O saxofonista Paulo Curado do Lugar da Desordem, Ken Filiano no contrabaixo e Bruno Pedroso na bateria, participam na festa do segundo aniversário da Trem Azul, no próximo dia 31.

Sobre o Lugar da Desordem
No que à arte dos sons diz respeito, bem pode Paulo Curado escrever no seu blog que o Sol ainda gira em torno da Terra – ou seja, a composição continua a ter primazia sobre tudo o mais, pois permanece viva a velha noção de que os músicos, ou seja, os executantes instrumentais, não são capazes de fazer música sem um autor, aquele que determina o que se deve tocar, mas regra geral não toca ele mesmo. O saxofonista e flautista português é um dos opositores deste “status quo” a que habitualmente chamamos “improvisadores”, ainda que improvisar seja uma forma de compor e que ele também seja um compositor na acepção convencional do termo, pois prepara estruturas e formas para posterior interpretação, embora as destine a si próprio enquanto um dos intérpretes e apenas funcionem como moldes para a criatividade espontânea.
Em consequência de tal esforço, somado aos de um número cada vez maior de partidários da causa da improvisação, já vamos observando na música que a Terra começa a girar à volta do Sol.

É essa a desordem de que o nome do seu trio com Demian Cabaud e Bruno Pedroso fala, renunciando à partida um propósito de acção: libertar.
Tal desordem é a proposta por Adorno como uma terceira via entre o conceito de música programática de Stravinsky e o de Schoenberg como prática unicamente regida por leis internas, e não perdeu a sua dimensão revolucionária.
Marx e Bakunine podem ter alguma coisa que ver com o assunto, mas o grande inspirador desta alternativa é Galileu.
E porquê um trio? Porque Curado acredita que três indivíduos constituem um microcosmos da sociedade e que nesta a livre-associação é um imperativo, e porque a três já a exploração das diferenças de personalidades, formações e interesses ganha proporções bastante proveitosas quando o propósito é, precisamente, desordenar.
A questão é apresentada num texto do mentor de O Lugar da Desordem de modo muito elementar e objectivo: o importante é verificar “como soa um grupo de pessoas” (a música como factor de democracia), e não que esse grupo produza os sons que estão na cabeça de quem o coordena. Ora, saber como soam as pessoas é saber “como soa a vida”, dado que não há arte que não seja o reflexo da realidade tal como ela é.

A improvisação do trio O Lugar da Desordem tem um idioma: o jazz. Nada de mais natural, tendo em consideração que este género musical cunhou um particular relacionamento entre o que é composto (escrito) e o que é improvisado e definiu uma boa parte das próprias técnicas improvisacionais, além de que formulou um (na verdade vários) modelo estético. Curado, Cabaud e Pedroso são músicos de jazz, mas atenção ao que isso implica nos dias de hoje, sabendo que o jazz é um híbrido e que praticamente todas as tendências musicais da actualidade adoptaram algumas das suas características.
Ser “músico de jazz” vai significando que se é um músico plural, e se verificarmos o percurso de Paulo Curado é isso precisamente o que confirmamos: responsável igualmente de múltiplas bandas sonoras para desenhos animados infantis (o que quer dizer que tem boas noções quanto à eficácia de uma melodia) e para teatro (o mesmo relativamente à criação de atmosferas), ele é bem o exemplo do artista aberto e sem preconceitos.
Aliás, já o vimos e ouvimos a tocar em contexto electroacústico com seis “laptopers”, e acompanhado por instrumentos de percussão étnicos como o berimbau brasileiro, o tambor falante de África e as tablas indianas. O Sol e a Terra a dançarem um com o outro.

Texto retirado daqui.

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