Archive for October, 2006

O menino António

Melhor Álbum – Salazar, agora na hora da sua morte
Autores: Miguel Rocha (desenho), João Paulo Cotrim (argumento)
Editora: Parceria A.M.Pereira

Melhor argumento de autor português
Argumentista: João Paulo Cotrim
Obra: Salazar, agora na hora da sua morte

Melhor desenho de autor português
Desenhador: Miguel Rocha
Obra: Salazar, agora na hora da sua morte

Sobre este álbum de banda desenhada super-premiado, recomenda-se a posta do Pedro Vieira de Moura, no LerBD.
A lista dos outros trabalhos premiados está no Beco das Imagens

Para melhor perceber esta biografia sobre António de Oliveira Salazar, as visitas aqui, aqui e aqui são absolutamente obrigatórias.

Grande vencedor do FIBDA 2006, este ambicioso álbum resulta em grande parte do virtuosismo de Miguel Rocha.

As ilustrações difusas caracterizam bem a figura histórica do menino António, que brinca com a estátua de D. José no Terreiro do Paço.

A descrição da vida do Salazar absurdo e obsessivo – nas palavras de João Cotrim – que fez de Portugal muito daquilo que ainda é hoje, é tudo menos uma abordagem superficial desta figura histórica; É um documento interessantíssimo e bem fundamentado, que requereu aos autores um grande trabalho de pesquisa, bem patente nas colagens, muito bem conseguidas. Parabéns à editora!
Chega de adjectivar. Time to read!

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«É um olhar que respeita a personagem, um ditador algo absurdo que é o resultado de um determinado momento histórico», que pretende «humanizar a figura de Salazar, para o tirar da categoria dos mitos, porque foi uma figura histórica num tempo histórico».
«É altura de o matar de vez e de o colocar no seu lugar histórico, porque a sensação que dá é que ainda não estamos reconciliados com o passado»
João Paulo Cotrim

Ao nível gráfico, o livro foi totalmente desenhado no computador, com infografias, colagens e montagens, recorrendo a fotografias e recortes de jornais.

A imagem que atravessa todo o livro é feita ainda de traços esfumados, desfocados, em tons monocromáticos e sombrios, com preto, branco e ocre, e com uma unidade gráfica que ajuda a definir a imagem de Salazar

Miguel Rocha

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aviso à navegação!

Por motivos técnicos, os conteúdos colocados no Luminescências como ligações para outro tipo de ficheiro que não fotografia, deixaram de estar disponíveis.
Ter um blog gratuito tem destas coisas.

Postais de Portugal – Aveiro

Apontamento fotográfico sobre os painéis de azulezos da bonita Estação de Aveiro – a Veneza de Portugal – no âmbito das Comemorações dos 150 de História da CP.
(textos retirados do sítio da Companhia dos Caminhos-de-Ferro Portugueses).
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Aveiro recebe o viajante com uma luminosidade única e um aroma intenso a maresia.
É a Ria que a envolve e atravessa a responsável por tão singular ambiência, perceptível logo à chegada, ultrapassadas as portas da Estação dos Caminhos-de-Ferro.
O edifício, revestido a painéis de azulejos da Fábrica da Fonte Nova (1916), com motivos alusivos às actividades marinhas, anuncia, desde logo, a ligação da cidade a esse generoso braço de mar.
E mesmo hoje em dia, não constituindo a sua fonte de maior riqueza, as margens da laguna são as favoritas para passeios tranquilos, dado que guardam não só belas paisagens, como os bairros mais graciosos de Aveiro.

Cidade situada em área plana na foz do rio Vouga, Aveiro é porto lagunar e marítimo, em comunicação com a Ria a que dá nome.

As salinas, desenvolvidas nesse estuário, dominam a paisagem, ocupando perto de 50 mil hectares, boa parte classificados de Interesse Ambiental pela União Europeia.

Atravessada por três canais, a cidade é conhecida por Veneza Portuguesa.


Povoação de pescadores, provavelmente anterior à ocupação romana, Aveiro assumiu com os Descobrimentos um papel importante no desenvolvimento económico do País, tendo sido elevada à categoria de cidade em 1759.


Com o assoreamento da sua barra conheceu algum declínio, do qual recuperou com a abertura da Barra nova, em 1808, e com a inauguração da estação dos Caminho-de-ferro.

Essa nova pujança é ainda hoje visível no seu ordenamento urbano, onde as casas Arte Nova e os revestimentos azulejares lhe imprimem um carácter único, em especial na zona do Rossio e junto ao pitoresco bairro da Beira-Mar.

No entanto, um dos edifícios mais espectaculares do município é a própria estação ferroviária, revestida de um grande número de painéis de azulejos da Fábrica da Fonte Nova (1916), reproduzindo motivos regionais.





Desde sempre associada às actividades marítimas e piscatórias, Aveiro possui um porto dotado de doca seca, estaleiros navais e grandes espaços reservados à seca do bacalhau.

As indústrias tradicionais estão também ligadas ao barro, funcionando na sua área grandes unidades fabris de azulejos, telhas, tijolos e louças, destacando-se, nesta última categoria, a Fábrica da Vista Alegre, uma visita obrigatória na cidade.


Actualmente consagrada ao comércio e serviços, a cidade conhece um novo fôlego graças ao crescimento exponencial da sua Universidade, criada nos anos 70 do século passado e ocupando hoje um lugar cimeiro no panorama académico português.

No que toca ao seu património histórico, destacam-se o Museu de Aveiro, instalado no antigo Mosteiro de Jesus, com uma importante colecção da arte barroca; a Igreja da Misericórdia, seiscentista, cujo interior está revestidos a azulejos; a Sé e a invulgar Igreja das Barrocas, capela do início do séc. XVIII, com planta octogonal e decorada a talhas douradas em todo o altar-mor e altares laterais.


A cerca de 12 Km encontram-se as Praias da Barra e da Costa Nova, já em Ílhavo, que, com as suas areias finas e águas despoluídas, fazem as delícias de locais e turistas.

As festas da cidade realizam-se a 13 de Maio em honra da Princesa Santa Joana, padroeira de Aveiro.

São igualmente de salientar a Festa de São Gonçalo, em Janeiro, e as Festas da Ria, no mês de Julho ou de Agosto (em função das marés), que integram uma corrida de barcos moliceiros e constituem um óptimo pretexto para experimentar uma das especialidades mais interessantes da doçaria nacional, os ovos-moles.


Recantos pitorescos

Os quarteirões da Beira-Mar, por exemplo, outrora habitados por pescadores, peixeiras e marnotos (homens que amanham as salinas) encantam com ruas estreitas, casas pequeninas protegidas da humidade por azulejos, e pontes coloridas.

O bairro encontra-se disposto ao longo do Canal de São Roque, junto ao animado Mercado do Peixe – lugar de peregrinação nocturna dos mais jovens, acabada a azáfama matinal da venda do pescado –, deixando reflectir nas águas serenas da Ria estendais de roupa esvoaçante e o pitoresco da sua arquitectura.

Do lado oposto ao casario, entre o canal e as salinas, um passeio pedonal – espécie de passadeira flutuante – é frequentado pelos adeptos da boa forma e da invulgar paisagem, ainda mais misteriosa quando envolta na névoa matutina típica das zonas ribeirinhas. A vizinha Marinha da Troncalhada, transformada em Eco-Museu, é lugar de visita obrigatória. Tem como propósito dar a conhecer a tarefa de arrancar o sal à laguna, com a ajuda indispensável do sol, do vento e da sabedoria musculada dos marnotos.


No coração da cidade

Já no Rossio, largo ajardinado junto ao Canal Central, são os barcos moliceiros e os magníficos edifícios Arte Nova, a atrair as atenções.

As embarcações ostentam na proa e na popa painéis decorativos com pinturas naif, acompanhadas de mensagens de carácter satírico, romântico, profissional ou religioso.

Em redor, as pastelarias, restaurantes e casas de petiscos oferecem algumas das mais gulosas especialidades da região: caldeiradas de peixe e enguias, burriés e os célebres ovos-moles.


História e modernidade

Deixando a baixa coroada pela rotunda conhecida por “Pontes”, que atravessa o Canal Central e liga os vários bairros da cidade, há que subir a Rua Direita. Pelo caminho surgem a seiscentista Igreja da Misericórdia, com o interior revestido a azulejo; o recentemente restaurado Teatro Aveirense, obra-prima da arquitectura do séc. XIX; e o edifício da Câmara Municipal, voltado para a estátua do jornalista e político aveirense, José Estêvão.

Esta artéria pedonal desemboca na Praça Marquês de Pombal, animada por esplanadas e repuxos refrescantes. À esquerda encontra-se o Palacete do Visconde da Granja, ou casa de Santa Zita, actualmente a maior fachada de azulejos da cidade, com seis painéis alusivos às estações do ano.

Um pouco mais à frente o Museu de Aveiro ocupa o Mosteiro de Jesus, convento fundado em 1458, que acolheu a princesa D. Joana, santa padroeira da cidade. A sua igreja, com rica talha dourada e azulejos, aloja o túmulo da princesa, e constitui uma obra-prima do barroco. Mesmo ali ao lado, a Sé foi construída junto a uma das portas das desaparecidas muralhas medievais, apresentando no adro uma cópia do cruzeiro do séc. XV, cujo original se encontra no seu interior.

Descendo a partir daí em direcção à Ria, vislumbra-se o Jardim Municipal Infante D. Pedro, lugar fresco e romântico com um grande lago e recantos ajardinados. A seus pés tem início o campus da Universidade, cujo Plano de Ordenamento foi coordenado pelo arquitecto Nuno Portas. Possui edifícios da autoria de Souto Moura e Siza Vieira, tendo este último projectado a Biblioteca – lugar aprazível para ler, estudar ou simplesmente descansar, graças às grandes vidraças voltadas para as marinhas, que se prolongam até ao mar.

Ao encontro do Atlântico

As praias, a pouco mais de 10 km, já pertencem ao concelho de Ílhavo, mas são frequentadas assiduamente pelos aveirenses. A mais próxima, a da Barra, possui o farol mais alto de Portugal – o terceiro a nível mundial – e um extenso areal banhado por águas relativamente dóceis.

A praia da Costa Nova permanece como a mais pitoresca, com os seus palheiros de madeira às riscas verdes, vermelhas, azuis ou amarelas. Uma jóia da arquitectura popular portuguesa plantada entre o Atlântico e o estuário da Ria de Aveiro.

Não faltam aí esplanadas para petiscar umas amêijoas ou mexilhões provenientes da ria. Um último momento de prazer antes de regressar ao ponto de partida – a Estação dos Caminhos-de-Ferro.

proposta desalinhada


O saxofonista Paulo Curado do Lugar da Desordem, Ken Filiano no contrabaixo e Bruno Pedroso na bateria, participam na festa do segundo aniversário da Trem Azul, no próximo dia 31.

Sobre o Lugar da Desordem
No que à arte dos sons diz respeito, bem pode Paulo Curado escrever no seu blog que o Sol ainda gira em torno da Terra – ou seja, a composição continua a ter primazia sobre tudo o mais, pois permanece viva a velha noção de que os músicos, ou seja, os executantes instrumentais, não são capazes de fazer música sem um autor, aquele que determina o que se deve tocar, mas regra geral não toca ele mesmo. O saxofonista e flautista português é um dos opositores deste “status quo” a que habitualmente chamamos “improvisadores”, ainda que improvisar seja uma forma de compor e que ele também seja um compositor na acepção convencional do termo, pois prepara estruturas e formas para posterior interpretação, embora as destine a si próprio enquanto um dos intérpretes e apenas funcionem como moldes para a criatividade espontânea.
Em consequência de tal esforço, somado aos de um número cada vez maior de partidários da causa da improvisação, já vamos observando na música que a Terra começa a girar à volta do Sol.

É essa a desordem de que o nome do seu trio com Demian Cabaud e Bruno Pedroso fala, renunciando à partida um propósito de acção: libertar.
Tal desordem é a proposta por Adorno como uma terceira via entre o conceito de música programática de Stravinsky e o de Schoenberg como prática unicamente regida por leis internas, e não perdeu a sua dimensão revolucionária.
Marx e Bakunine podem ter alguma coisa que ver com o assunto, mas o grande inspirador desta alternativa é Galileu.
E porquê um trio? Porque Curado acredita que três indivíduos constituem um microcosmos da sociedade e que nesta a livre-associação é um imperativo, e porque a três já a exploração das diferenças de personalidades, formações e interesses ganha proporções bastante proveitosas quando o propósito é, precisamente, desordenar.
A questão é apresentada num texto do mentor de O Lugar da Desordem de modo muito elementar e objectivo: o importante é verificar “como soa um grupo de pessoas” (a música como factor de democracia), e não que esse grupo produza os sons que estão na cabeça de quem o coordena. Ora, saber como soam as pessoas é saber “como soa a vida”, dado que não há arte que não seja o reflexo da realidade tal como ela é.

A improvisação do trio O Lugar da Desordem tem um idioma: o jazz. Nada de mais natural, tendo em consideração que este género musical cunhou um particular relacionamento entre o que é composto (escrito) e o que é improvisado e definiu uma boa parte das próprias técnicas improvisacionais, além de que formulou um (na verdade vários) modelo estético. Curado, Cabaud e Pedroso são músicos de jazz, mas atenção ao que isso implica nos dias de hoje, sabendo que o jazz é um híbrido e que praticamente todas as tendências musicais da actualidade adoptaram algumas das suas características.
Ser “músico de jazz” vai significando que se é um músico plural, e se verificarmos o percurso de Paulo Curado é isso precisamente o que confirmamos: responsável igualmente de múltiplas bandas sonoras para desenhos animados infantis (o que quer dizer que tem boas noções quanto à eficácia de uma melodia) e para teatro (o mesmo relativamente à criação de atmosferas), ele é bem o exemplo do artista aberto e sem preconceitos.
Aliás, já o vimos e ouvimos a tocar em contexto electroacústico com seis “laptopers”, e acompanhado por instrumentos de percussão étnicos como o berimbau brasileiro, o tambor falante de África e as tablas indianas. O Sol e a Terra a dançarem um com o outro.

Texto retirado daqui.

Perguntai ao muro

Muro, em que meditas,
ao longo da estrada, por estas quintas,
casas, ermos, entre paixões
de alma dos espectros
presentes e vindouros? E os vivos,
porque se escondem
por trás da tua fronte alta,
quieta, seca, que cobiça os astros,
sem saber que o teu corpo
de xisto corre, avança,
mas não pode soltar-se da Terra
e alcançar o Alto?

Fiama Hasse Pais Brandão, As Fábulas

A receita possível, ou…

Para eliminar os problemas gastrintestinais provocados pela ingestão de um Eisbein joelho de porco requentado coberto por cebolinhas verdes -, nada melhor que uma sopinha de asa de dragão, que se espera macia e cremosa, mas de aroma intenso, para evitar que o ácido gástrico possa refluir de novo para o esófago.

World Press Photo 06

Na Prisão de Maula em Lilongwe, Malawi, centenas de reclusos dormem amontoados no chão.
Estão tão apertados, que só se podem mexer quando um recluso designado para o efeito dá a ordem para se virarem todos ao mesmo tempo.

Faure Gnassingbe, filho do mais antigo ditador africano, Gnassingbe Eyadema, foi eleito presidente de Togo em Abril de 2005. Num autêntico golpe militar, o exército colocou-o no lugar do pai, após a morte deste em Fevereiro.
A oposição organizou um protesto minutos após a eleição e as ruas da capital Lome encheram-se de barricadas.
Os confrontos com as forças militares estão à vista.

A longa guerra-civil na Libéria e o tumulto político deram finalmente lugar a eleições em 2005 e a uma relativa estabilidade. Do conflito resultaram inválidos que representam cerca de 16% da população, entre os quais cerca de 77.000 cegos, consequência ou de sub-nutrição ou porque não foram tratados a tempo.

World Press Photo 2006 e Prémio Visão Fotojornalismo 2006, no Centro Cultural de Belém, até dia 22 de Outubro.