Archive for February, 2006

FIBD – Angoulême 2006

Melhor Álbum
Notes pour une histoire de guerre, de Gipi

Três jovens vêm-se envolvidos num contexto de guerra civil, algures nos Balcãs…
Gipi expõe de forma inteligenteos mecanismos do ódio, através destes rapazes que integram as milícias, em busca da sua própria identidade.

Melhor Argumento e Prémio do Público

Baseada nas memórias dos seus pais nos anos sessenta, a narrativa deste álbum a preto e branco decorre na conservadora região de Maine-et-Loire, onde reinava a autoridade da igreja e dos patrões.
Em flash-back, conta-nos as actividades progressistas dos pais, militantes de esquerda: da mãe, então com 14 anos e operária fabril, que tira partido das actividades da juventude católica e do pai, professor.

Em Paris, verão de 1944, resiste-se à ocupação nazi.
Nas margens do Sena, a rapariga, escondida num barco que se prepara para receber uma carga misteriosa, é salva por um soldado da Wehrmacht.

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Mudança de estação

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…

Alberto Caeiro, em “O Guardador de Rebanhos“, 8-3-1914

No Jardim do Bem e do Mal – entre a razão e a emoção

A UNIÃO DO CÉU E DO INFERNO (1)
Argumento

Rintrah(2) ruge e treme os seus fogos no ar carregado;
Nuvens famintas balançam sobre o abismo.

Submisso outrora e no caminho do perigo,
O justo percorria
O vale da morte.
Plantam-se rosas onde crescem espinhos
E na estéril charneca
Cantam as abelhas

Foi então plantado o caminho do perigo
E um rio e uma fronte brotaram
De cada penhasco e cada túmulo,
E nos ossos branqueados
Brotou barro vermelho.

Até que o vilão(3) deixou os caminhos do fácil
Para seguir os caminhos do perigo
E expulsar o justo para regiões estéreis.

A vil serpente anda agora
Em mole humildade
E o justo percorre em fúria os desertos
Onde erram os leões.

Rintrah ruge e treme os seus fogos no ar carregado;
Nuvens famintas balançam sobre o abismo.

William Blake (1757-1827)

(1) Sobre o texto: existem 9 cópias de A União do Céu e do Inferno, compostas por 24 pranchas (gravura e texto) seguidas de mais 3, correspondentes a Um Cântico de Liberdade.
Sobre o título: este adapta, unindo (casando) satiricamente os opostos, o título da talvez mais conhecida obra de Swedenborg, De Coelo et Inferno et ejus mirabilibus: ex auditis et visis, 1758, de onde o texto de Blake retira o impulso inicial e para o qual remete continuamente.

(2) Tal como Urthona, em Um Cântico de Liberdade, Rintrah é uma figura mítica e simbólica da poesia profética de Blake; A potência maléfica (vilão) expulsa o justo.

(3) O vilão simboliza o padre e a sua moral hipócrita e repressiva; O Argumento simboliza a escravidão e a revolta

Tradução e notas de João Ferreira Duarte
Editora – Relógio D`Água

Oh, good God, this is amazing!!

Embora não seja de todo inesperado, pois, perdoem-me a imodéstia, era claramente uma questão de tempo, não deixa de ser excitante o Luminescências ter atingido hoje

Quero por isso, nesta noite, agradecer aos membros da Academia bloguista, ao Blogger, ao Google, ao Bravenet, ao Haloscan, ao Technorati, ao del.icio.us, ao Blinkar, à minha família…
E que me perdoem se esqueço alguém, mas a emoção é muito grande…

pessoal e transmissível

Desafiado pelo Rodrigo, cá vai:

hábitos/manias/pancadas/noias:

Só não guardo dinheiro, não sei porquê!

De resto, guardo cadernetas de cromos coleccionadas na adolescência, revistas com dez e quinze anos, bilhetes de cinema, de concertos ( creio que o mais antigo é do Peter Gabriel no Dramático de Cascais, nos idos de setenta), bilhetes de jogos de futebol, postais, relógios sem conserto…

Eu sei, eu sei que não tenho tomado os remédios…!
Contam-se pelos dedos da mão, o número de vezes que não volto atrás para me certificar que o carro está fechado.

Nem vinho, está bom de ver!
Em lugar de o beber… colecciono-o! Que coisa estranha…

It`s Oh So Quiet… schhh… schhh
O alarme do telefone programado para 30 minutos antes de me levantar…
Pelo prazer de ouvir a Bjork pelo menos 3 vezes, com intervalos de 10 minutos…

Mas tem de ser no meinho!
Sempre que compro bilhetes para espectáculos, tento ficar no último terço da sala.

Regulamento do jogo:
“Cada bloguista participante tem de enumerar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do “recrutamento”. Além disso, cada participante deve reproduzir este “regulamento” no seu blogue.”

Assim sendo, a coisa passa para:
Noite – Ad tempus
Cristina – Farol das Artes
Papo Seco – Uma sandes de atum
Jorge Ferreira – Tomarpartido
João Sousa André – Estação Central

E ainda para a minhoca iluminada

Das vãs subtilezas

Há subtilezas frívolas por meio das quais, algumas vezes, os homens procuram alcançar reputação: é o caso dos poetas que fazem inteiras obras começando cada verso por uma letra. Similarmente vemos ovos, bolas, asas e machados formados por poetas gregos da Antiguidade com a medida dos seus versos, ora alongados ora encurtados de maneira a virem a representar esta ou aquela figura. Dessa sorte era também a ciência daquele que se entreteve a contar os modos em que se podiam dispor as letras do alfabeto, chegando ao número inacreditável em que se lê em Plutarco.

Acho boa a decisão daquele a quem apresentaram um homem adestrado a arremessar um grão de milho com tal perícia que infalivelmente o fazia sempre passar pelo buraco da agulha. Ao ser-lhe, depois, pedido que desse um presente como recompensa de tão raro talento, ele, bem divertida e justamente, a meu parecer, mandou que a esse mestre entregassem dois ou três sesteiros de milho, a fim que uma tão bela arte não se perdesse por falta de exercício.
É um maravilhoso testemunho da fraqueza do nosso juízo que ele dê preço às coisas pela raridade ou pela novidade, ou ainda pela dificuldade, quando a estas não se juntam a bondade e a utilidade.

Acabámos, agora mesmo, de, em minha casa, nos entreter num jogo em que vence quem for capaz de encontrar mais coisas cujos extremos se tocam, como «Sire», um título que se dá à mais elevada personagem do nosso Estado, o Rei, e que também se dá ao vulgo, tais os mercadores, mas de modo nenhum se aplica aos que estão entre os dois. Às mulheres mais nobres chama-se «Dames»; às de condição média, «Demoiselles»; e outra vez «Dames», às de escalão mais baixo. Os dados lançados lançados nas mesas de jogo só são permitidos nas casas dos príncipes e nas tabernas.

Dizia Demócrito que os deuses e os demónios tinham os sentimentos mais agudos que os homens, que ocupam o andar do meio.
Os Romanos envergavam traje igual nos dias de luto e nos de festa.
É certo que o medo extremo e o extremo ardor da coragem igualmente transtornam o ventre e são laxativos.
A alcunha de «Tremelicante», cognome do duodécimo rei de Navarra, Sancho, mostra-nos que a bravura faz-nos estremecer os membros tão bem quanto o medo. E aquele a quem os seus punham a armadura, os quais, ao lhe verem fremir a pele, procuravam aquietá-lo minimizando o risco em que iria incorrer, disse-lhes: «Mal me conheceis. Soubesse a minha carne aonde a minha coragem me vai levar, congelaria de todo.»
A fraqueza que nos exercícios de Vénus nos sobrevém como resultado da frieza e do fastio, também nos acomete por causa de um desejo veemente de mais ou de um ardor desregrado. A frialdade extrema e o extremo calor cozem e assam.

Aristóteles diz que os lingotes de chumbo tanto se fundem e derretem com o frio e os rigores de inverno como com o calor intenso.
O desejo e a saciedade impregnam de dor os estado acima e abaixo do prazer. A bruteza e a sabedoria coincidem no modo de sentir e de suportar com firmeza as vicissitudes da fortuna humana: os sábios domam e dominam os males, os outros ignoram-nos; estes, por assim dizer, estão aquém das desventuras, aqueles além – após haverem bem pesado e considerado a sua natureza, as terem medido e julgado tais como elas são, saltam-lhes por cima graças à força de um ânimo vigoroso, desdenham-nas e calcam-nas aos pés, uma vez que têm uma alma forte e inabalável, e que os dardos da fortuna vindo a entrar nela, forçosamente se embotam e ressaltam, pois encontram um corpo em que logram não deixar marcas.
Entre estes dois extremos situa-se a condição normal e mediana dos homens, a qual é a dos que apercebem os males, sentem-nos e não os conseguem suportar. A infância e a decripitude coincidem na debilidade do espírito, a avareza e a prodigalidade, no desejo de atrair e adquirir.


Pode-se dizer que, muito plausivelmente há uma ignorância abecedária que precede o saber e uma outra, doutoral, que se lhe segue, ignorância esta que o saber produz e engendra da mesma maneira que desfaz e destrói aqueloutra.
Dos espíritos simples, menos curiosos e menos instruídos, fazem-se bons cristãos, que, por reverência e obediência, com simplicidade, crêem e mantêm-se submissos às leis. É nos espíritos de vigor e capacidade médios que se engendram as opiniões erróneas, pois eles seguem a aparência das suas primeiras impressões e têm pretextos para interpretar como simpleza e estultícia o nosso apego aos antigos usos, considerando que nós aí não chegámos por via do estudo dessas matérias.

Os grandes espíritos, mais avisados e clarividentes, constituem um outro género de bons crentes: por meio de uma aturada e escrupulosa investigação, penetram nas Escrituras até atingir uma luz mais profunda e abstrusa, e entendem o misterioso e divino segredo da nossa política eclesiástica.
Vemos, porém, alguns, com maravilhoso proveito e com consolidação da sua fé, chegarem, através do segundo, a este último nível, com refrigério, acções de graças, reforma dos costumes e grande modéstia.
Não entendo nesta categoria situar aqueloutros que, para se purgarem da suspeita dos seus passados erros e para ganharem a nossa confiança, tornam-se extremistas, insensatos e injustos defensores da nossa causa, a qual maculam com infindos e repreensíveis actos de violência.


Os camponeses simples são gente honesta e gente honesta são os filósofos, ou seja, aqueles que, tanto quanto o permitem os nossos tempos, possuem naturezas fortes e ilustres, enriquecidas de um grande cabedal de conhecimentos úteis.

Os «mestiços», que desdenharam o primeiro estado – o da ignorância das letras – e não conseguiram atingir o outro, estando o seu cu entre duas selas (e no seu número eu, com tantos outros, me incluo), são perigosos, ineptos e importunos: são eles que trazem transtorno ao mundo.
Por isso, no que me diz respeito, recuo tanto quanto posso para esse primeiro estado natural, do qual em vão tentei me afastar.


A poesia popular, puramente espontânea, tem encantos e graças pelas quais se compara à beleza superior da poesia artisticamente perfeita, como se vê nos vilancicos gascões e nas canções que nos foram trazidas de nações sem conhecimento de nenhuma ciência e nem mesmo da escrita.
A poesia mediana, que se situa entre essas duas, é desprezível e indigna de ser honrada e apreciada.

Mas porque, após ter sido aberta a passagem ao espírito, descobri, como habitualmente acontece, que tornámos por exercício difícil e objecto raro o que de todo não o é, e que a imaginação, uma vez excitada, acha um infindo número de semelhantes exemplos, não acrescentarei senão o seguinte: se estes ensaios fossem dignos de serem reflectidos, poderia ocorrer, em minha opinião, que eles não agradassem aos espíritos comuns e vulgares, nem tão-pouco aos singulares e excelentes – aqueles não os entenderiam suficientemente, estes, entendê-los-iam bem de mais – e só poderiam sobreviver na região intermédia.

Montaigne
Ensaios – Antologia
Livro 1, Capítulo 54 – Das vãs subtilezas
Tradução de Rui Bertrand Romão
Pinturas de Pedro Calapez

Ó prima, quer vir comer uns queijinhos frescos a minha casa?