Archive for February, 2005

Uau! What a Night!


Million Dollar Baby – melhor filme


Clint Eastwood – melhor realizador


Hilary Swank – melhor actriz


Morgan Freeman – melhor actor secundário

do poeta liberal social avançado..

Scène aux quatre personnages, de pablo Picasso

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar…),

Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa,
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida –
Não ser juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas,
E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão razão exterior para ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter de pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo mais é estúpido como um Dostoievski ou um Gorki.
Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele
Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!

Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.

Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.

Álvaro de Campos

"Terra de sonho de uma artista" – Jane Eyre vista por Paula Rêgo

Este conjunto de litografias de Paula Rêgo inspira-se na obra Jane Eyre, An Autobiography, escrita por Charlotte Brontë, e a sua narrativa revela uma concepção de um feminismo interior violento.

O drama psicológico nas suas gravuras é alimentado, por um lado, pelo grito de revolta das suas paisagens mentais libertadoras e por outro pela realidade social, sombria e lúgubre.


Mr. Rochester
da série Jane Eyre, 2002
Litografia 89,5 x 67 cm


Loving Bewick
da série Jane Eyre, 2002
Litografia 87,5 x 63 cm


Night, 2002
Litografia 73 x 54 cm


Scoolroom
da série Jane Eyre, 2002
Litografia 62,5 x 88 cm

circula por aí que vai haver segundo concerto..

Fnac Chiado

8:00 – inscrição na lista de canditatos ao papelinho mágico. O voluntário explica-me que há cerca de 600 bilhetes, cada pessoa pode adquirir 4 e o meu nº de inscrição é o 320! Ah! Eles esperam receber mais bilhetes. Decido ficar.

9:00 – Saí da fila para comprar o Público e A Bola – vá-se lá saber porquê..

9:30 – Primeira contagem desde que cheguei; quem não responde, é excluido.

10:00 – Começa a subida ao calvário.
Para entreter, fiz um concurso: a quem adivinhasse que música tocava no meu celular, oferecia um cafezinho.
Ensaio: Apocalyptica. Acertou um rapaz que deve gostar de Metallica.
Segue-se a música da banda sonora de Kill Bill… demorou mais tempo, mas um rapaz que tinha vindo de Cascais porque lhe disseram que a loja do Cascais-Shopping não iria ter bilhetes para a relva – só em Lisboa, acertou. Vamos lá tomar um café.
Afinal, em Lisboa também não há bilhetes para a relva!

10:30 – O Benfica não jogou um carapau, diz um benfiquista.. A lagartagem é que deve estar contente. Eu ficava contente era se chegasse a minha vez e ainda houvesse bilhetes!
Mas ontem foi difícil. A equipa já está em Alcochete, a ser recuperada por um psicólogo e duas massagistas tailandesas! Depois de ensurdecerem o Ricardo, atirarem 2 isqueiros do F C Porto, 4 baralhos de cartas e uma foto do Sabry.. deve ser dura, a vida de jogador de futebol!
Porra, que está um frio do catarino!

11:00 – O consumo de cerveja começa a diminuir e começam a aparecer umas sandes e uns sumos. Os mais descrentes começam a abandonar a fila, que não pára de aumentar.
Fluxos migratórios, digo eu!

11:15 – Já só há bilhetes de 81 euros. Nova debandada. Pode ser que venham mais bilhetes. És mesmo troll!

11:45 – Algumas pessoas trocam telefonemas, para cruzar informação com outros pontos de venda. Não estou a gostar do que ouço..
Mas esta malta não tem mais que fazer do que estar numa fila e largar 80 euros para ver os U2?!

12:45 – O último bilhete foi vendido ao senhor com mau aspecto que tinha o nº 194.
O pessoal começa a andar em círculos, como os maluquinhos do nº 53 da Avenida do Brasil..
Retiro-me discretamente, pago quase 9 euros de estacionamento e vou almoçar. Cansado!

Depois de ver em Alvalade Zooropa em 93 e PopMart em 97, para que é que eu ainda quero ver U2? Devo estar taralhoco!

Se houver segundo espectáculo, peço o saco-cama emprestado à minha filha..

Pelo menos uma vez na vida deve ver-se um filme assim!

Leo Carax é um realizador iluminado e, por vezes, chega até nós um pouco da sua luz, através de grandes momentos de cinema.
É o caso do maravilhoso Les amants du Pont-Neuf!

Paris.
Pessoas sem abrigo vivem em pequenas comunidades, perto da ponte mais velha da cidade, Le Pont-Neuf.

Alex perde os sentidos numa rua movimentada e é atropelado.
De volta ao abrigo, tem como que uma visão: Michèle, uma linda mulher que dorme..
Tem um olho tapado, fruto de um processo degenerativo da visão.
Reconhece-a. É uma pintora originária de uma família burguesa, que decidiu viver na rua e dessa forma depurar a sua arte.

Alex ganha dinheiro a fazer teatro e fogo de rua.

Tornam-se amigo e amantes.

Alex tem um violento acto de ciúmes e é preso como desordeiro.
Michèle, entretanto recuperada da visão, vai visitá-lo e promete que se encontrarão na ponte, quando ele for libertado..

A violência da côr do fogo-de-artifício e do arco do violoncelo, provocam uma estranha sensação de abandono à paixão de Alex – numa explosão de luz, perante os nossos sentidos.
A ressaca da emoção é violenta!

Les amants du Pont-Neuf, de Leo Carax – 1991
Juliette Binoche – Michèle Stalens
Denis Lavant – Alex

Nada de equívocos.. este filme não é sobre boxe!

Frankie Dunn é um envelhecido manager de boxe, cuja existência atormentada pela filha ausente o leva todos os dias à igreja.
O seu amigo de longa data Eddie, que perdeu um olho no centésimo nono combate, vive no ginásio e trata da limpeza.
Maggie, uma rapariga de trinta e dois anos, procura um treinador, e crê que Frank é capaz de a ajudar a concretizar o sonho de chegar ao topo.

A narração tranquila e envolvente de Freeman, a elegância e mestria de Eastwood, como realizador, actor e autor da magnífica banda sonora, e “always protect yourself” Swank, fazem de Million Dollar Baby um dos mais belos filmes dos últimos tempos.

Esta comovente história sobre sonhos.. desfeitos.. por realizar..

Merece um grande aplauso no próximo domingo!

RealizadorClint Eastwood
Clint Eastwood – Frank
Hilary Swank – Maggie
Morgan Freeman – Eddie

Ele só queria salvar a Pátria!

No dia das eleições, num gesto de grande patriotismo, o Dr Mário Soares apelou ao voto dos portugueses, e assumiu que estava convencido que o povo daria uma vitória expressiva ao PS.

Com isto arrisca uma multa, entre 50 cêntimos e cinco euros (!), que, com o maior sorriso do mundo- diz que pagará com gosto!

Ao pretender transmitir a ideia que está senil, o Dr Mário Soares sabe que a impunidade de que goza neste país, lhe permite estas leviandades.

Se o ridículo matasse..