Archive for November, 2004

Da sedução dos anjos

Não podia ser mais oportuno, este poema..

Quando acabamos de saber que a Assembleia da República vai ser dissolvida..

E que vamos para eleições!

Quem é que disse que os anjos não têm sexo?!



Respeitosamente, o Senhor Presidente acaba de nos enrabar a todos…

Passivos incluídos..



Posted by Hello The Charnel-House

Anjos seduzem-se: nunca ou a matar.

Puxa-o só para dentro de casa e mete-

-Lhe a língua na boca e os dedos sem frete

Por baixo da saia até se molhar

Vira-o contra a parede, ergue-lhe a saia

E fode-o. Se gemer, algo crispado

Segura-o bem, fá-lo vir-se em dobrado

P’ra que do choque no fim te não caia.

Exorta-o a que agite bem o cu

Manda-o tocar-te os guizos atrevido

Diz que ousar na queda lhe é permitido

Desde que entre o céu e a terra flutue –

Mas não o olhes na cara enquanto fodes

E as asas, rapaz, não lhas amarrotes.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Mar de Setembro

Tudo era claro:

céu, lábios, areias.

O mar estava perto,

Fremente de espumas.

Corpos ou ondas:

iam, vinham, iam,

dóceis, leves, só

alma e brancura.

Felizes, cantam;

serenos, dormem;

despertos, amam,

exaltam o silêncio.

Tudo era claro,

jovem, alado.

O mar estava perto,

puríssimo, doirado.

Eugénio de Andrade, 1961

boas acções!

Ao domingo, como habitualmente, é dia de pagar o dízimo..

A esta boa acção, hoje consegui juntar uma segunda, quando vi um cavalheiro com uma pilha de livros que mal conseguia segurar; abordei-o e disse: “O amigo vai deslocar hoje essa montanha?”, ao que ele, meio surpreso, retorquiu: ” há algum impedimento?”.

Sorri, e disse-lhe para não me interpretar mal, mas que faria melhor negócio se voltasse depois de amanhã dia 30, que é o dia do aderente, onde podia comprar todos aqueles livros com 10% de desconto…

Sorriu e disse: “sabe que já me tinha livrado de outros tantos? Vou imediatamente rever a minha lista de compras de natal e seguir a sua sugestão, obrigado!”.

Porque aquela voz me era familiar da rádio, e sei que ele escreve num blog, era engraçado que ele lesse este post… quem sabe!

De seguida, dei com o livro do Barnabé!

Folheei-o e lembrei-me imediatamente de O Meu Pipi.. oferecido por uma amiga – 8ª edição!!!

Não recomendo nenhum dos dois..

Um milhão de vezes o 1º Ano de Inimigo Público..

A metade do preço, e muito mais divertido que os anteriores!

Agora, vou corrigir um erro de avaliação.. já volto!

era para ser um comentário..

mas, uma vez que não consegui comentar esta posta da Grande Loja.. presumo que por dificuldades técnicas.. cá vai:

Nós precisamos é de Iluminar o natal às pessoas, sim senhor!

Até porque quem pagou a arvorezinha foi um banco e um canal de televisão privados..

Ainda que seja a edilidade a pagar a factura à EDP(!), é com o dinheiro dos munícipes.. lisboetas!

Do que nós não precisamos é da demagogia de afirmar que todo aquele desperdício daria para iluminar o natal às pessoas de vila nova da cafeteira..

Do que nós precisamos é que os caciques locais se mexam!



Boas Festas!

Winston Churchill – II

Graças à notoriedade adquirida enquanto correspondente de guerra do Morning Post na Guerra dos Bóeres – África do Sul, Winston Churchill tornou-se deputado pelo Partido Conservador, em 1900.

Após mudar para o Partido Liberal, quatro anos mais tarde, chegou a Secretário de Estado e mais tarde a Ministro. Em 1911, tornou-se Primeiro Lorde do Almirantado.

Sobre o receio das provocadoras intenções dos Alemães em atacarem a Armada Britânica, escreveu um dia, num misto de ingenuidade e esperança nos homens:

“Parecem tão cautelosas e correctas, aquelas palavras mortíferas. Vozes suaves, a murmurar frases urbanas, graves e ponderadas, com precisão, em grandes salões pacíficos.

Mas essa mesma Alemanha já abriu fogo com os seus canhões e já derrubou países com menos pré-aviso.

Por isso, agora, os telégrafos do Almirantado sussurram através do éter aos mastros altos dos navios, e os comandantes percorrem para trás e para diante o convés dos seus navios, absortos nos seus pensamentos.

Não é nada. É menos que nada. É demasiado absurdo, demasiado fantástico pensar-se tal no século XX.

Ou será fogo e morte a irromperem na escuridão e a saltarem-nos ao pescoço, serão torpedos a rasgar o ventre de navios meio-adormecidos, uma alvorada para uma supremacia naval que já não existe e para uma ilha, até agora bem guardada, finalmente indefesa?

Não, não é nada. Ninguém faria tais coisas. A civilização já superou tais perigos. A interdependência das nações ao nível das relações e trocas comerciais, o sentido do direito público, a Convenção de Haia. Os princípios Liberais, o Partido Trabalhista, a alta finança, a caridade cristã, o bom senso tornaram impossíveis tais pesadelos.

Têm mesmo a certeza? Seria uma pena enganarmo-nos. Um erro desses só poderia ser cometido uma vez – de uma vez por todas.”



O último legado?!

Wheat Field Under Threatening Skies é uma das mais poderosas e também uma das mais discutidas obras de Van Gogh!

Vista como um prenúncio de suicídio por alguns, mais positivista por outros.

Sobre esta tela, disse:

“São vastos campos de trigo debaixo de céus agitados, e eu não necessitei abandonar o meu estilo para tentar expressar a tristeza e solidão extremas..”





clique na imagem para ampliar



Vincent Van Gogh

Wheat Field Under Threatening Skies – 1890

Óleo sobre tela – 50.5 x 100.5 cm

Vincent Van Gogh Museum, Amsterdam

passagem das horas

Hoje, o dia amanheceu por volta das nove e meia! E não tem hora marcada, o entardecer!

Para ir lendo, calmamente, para sentir.. demais.. de menos..

Para me inquietar…

Trago dentro do meu coração,

Como num cofre que se não pode fechar de cheio,

Todos os lugares onde estive,

Todos os portos a que cheguei,

Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,

Ou de tombadilhos, sonhando,

E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

A entrada de Singapura, manhã subindo, cor verde,

O coral das Maldivas em passagem cálida,

Macau à uma hora da noite… Acordo de repente…

Yat-lô–ô-ôôô-ô-ô-ô-ô-ô-ô…Ghi-…

E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade…

A estatura norte-africana quase de Zanzibar ao sol…

Dar-es-Salaam (a saída é difícil)…

Majunga, Nossi-Bé, verduras de Madagascar…

Tempestades em torno ao Guardafui…

E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada…

E a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo…

Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei…

Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos…

Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,

Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir

E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.

A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,

Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,

Desta entrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,

Desta turbulência tranquila de sensações desencontradas,

Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,

Deste desassossego no fundo de todos os cálices,

Desta angústia no fundo de todos os prazeres,

Desta sociedade antecipada na asa de todas as chávenas,

Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.

Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei

Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,

Consanguinidade com o mistério das coisas, choque

Aos contactos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,

Ou se há outra significação para isto mais cómoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,

Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,

A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,

A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair

Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,

E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,

Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,

E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,

Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,

É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas…

Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,

Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca…

Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?

Correram o bobo a chicote do palácio, sem razão,

Fizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra.

Bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das mãos.

Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir…

Tão decadente, tão decadente, tão decadente…

Só estou bem quando ouço música, e nem então.

Jardins do século dezoito antes de 89,

Onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira?

Como um bálsamo que não consola senão pela ideia de que é um bálsamo,

A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai.

Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.

Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.

Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.

Estou no caminho de todos e esbarram comigo.

Minha quinta na província,

Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti.

Assim fico, fico… Eu sou o que sempre quer partir,

E fica sempre, fica sempre, fica sempre,

Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica…

Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.

Só humanitariamente é que se pode viver.

Só amando os homens, as acções, a banalidade dos trabalhos,

Só assim – ai de mim! -, só assim se pode viver.

Só assim, ó noite, e eu nunca poderei ser assim!

Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,

Mas tudo ou sobrou ou foi pouco – não sei qual – e eu sofri.

Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,

E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.

Amei e odiei como toda gente,

Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,

E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.

Vem, ó noite, e apaga-me, vem e afoga-me em ti.

Ó carinhosa do Além, senhora do luto infinito,

Mágoa externa na Terra, choro silencioso do Mundo.

Mãe suave e antiga das emoções sem gesto,

Irmã mais velha, virgem e triste, das ideias sem nexo,

Noiva esperando sempre os nossos propósitos incompletos,

A direcção constantemente abandonada do nosso destino,

A nossa incerteza pagã sem alegria,

A nossa fraqueza cristã sem fé,

O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,

A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,

A nossa vida, ó mãe, a nossa perdida vida…

Não sei sentir, não sei ser humano, conviver

De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.

Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,

Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,

Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta,

Uni a razão para descansar, uma necessidade de me distrair,

Uma cousa vinda diretamente da natureza para mim.

Por isso sê para mim materna, ó noite tranquila…

Tu, que tiras o mundo ao mundo, tu que és a paz,

Tu que não existes, que és só a ausência da luz,

Tu que não és uma coisa, rim lugar, uma essência, uma vida,

Penélope da teia, amanhã desfeita, da tua escuridão,

Circe irreal dos febris, dos angustiados sem causa,

Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos,

E sê fresco e alívio, ó noite, sobre a minha fronte…

Tu, cuja vinda é tão suave que parece um afastamento,

Cujo fluxo e refluxo de treva, quando a lua bafeja,

Tem ondas de carinho morto, frio de mares de sonho,

Brisas de paisagens supostas para a nossa angústia excessiva…

Tu, palidamente, tu, flébil, tu, liquidamente,

Aroma de morte entre flores, hálito de febre sobre margens,

Tu, rainha, tu, castelã, tu, dona pálida, vem…

Sentir tudo de todas as maneiras,

Viver tudo de todos os lados,

Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,

Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos

Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,

Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,

Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,

Seja uma flor ou uma ideia abstrata,

Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.

E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.

São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,

E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,

Porque ser inferior é diferente de ser superior,

E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.

Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,

E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,

E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,

E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.

Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,

Basta que ela exista para que tenha razão de ser.

Estreito ao meu peito arfante, num abraço comovido,

(No mesmo abraço comovido)

O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,

O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,

E o matricida, o fratricida, o incestuoso, o violador de crianças,

O ladrão de estradas, o salteador dos mares,

O gatuno de carteiras, a sombra que espera nas vielas —

Todos são a minha amante predilecta pelo menos um momento na vida.

Beijo na boca todas as prostitutas,

Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,

A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos

E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.

Tudo é a razão de ser da minha vida.

Cometi todos os crimes,

Vivi dentro de todos os crimes

(Eu próprio fui, não um nem o outro no vício,

Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,

E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).

Multipliquei-me, para me sentir,

Para me sentir, precisei sentir tudo,

Transbordei, não fiz senão extravasar-me,

Despi-me, entreguei-me,

E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,

E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.

Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,

Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,

Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares

Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.

Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,

E todos os pederastas – absolutamente todos (não faltou nenhum).

Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!

(Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,

Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)

Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,

Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,

Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,

A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,

Os seus half-holidays inesperados…

Mary, eu sou infeliz…

Freddie, eu sou infeliz…

Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,

Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fôsseis,

Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —

Sim, e o que tenho eu sido, o meu subjetivo universo,

Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,

Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!

Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro,

E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim …

Meu coração tribunal, meu coração mercado,

Meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco,

Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,

Meu coração banco de jardim público, hospedaria,

Estalagem, calabouço número qualquer coisa

(Aqui estuvo el Manolo en vísperas de ir al patíbulo)

Meu coração clube, sala, plateia, capacho, guichet, portaló,

Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial,

Meu coração postigo,

Meu coração encomenda,

Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,

Meu coração à margem, o lirrite, a súmula, o índice,

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.

Todos os amantes beijaram-se na minh’alma,

Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,

Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,

Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,

E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.

(Aquela cujo sorriso sugere a paz que eu não tenho,

Em cujo baixar-de-olhos há uma paisagem da Holanda,

Com as cabeças femininas coiffées de lin

E todo o esforço quotidiano de um povo pacífico e limpo…

Aquela que é o anel deixado em cima da cómoda,

E a fita entalada com o fechar da gaveta,

Fita cor-de-rosa, não gosto da cor mas da fita entalada,

Assim como não gosto da vida, mas gosto de senti-la …

Dormir como um cão corrido no caminho, ao sol,

Definitivamente para todo o resto do Universo,

E que os carros me passem por cima.)

Fui para a cama com todos os sentimentos,

Fui souteneur de todas as emoções,

Pagaram-me bebidas todos os acasos das sensações,

Troquei olhares com todos os motivos de agir,

Estive mão em mão com todos os impulsos para partir,

Febre imensa das horas!

Angústia da forja das emoções!

Raiva, espuma, a imensidão que não cabe no meu lenço,

A cadela a uivar de noite,

O tanque da quinta a passear à roda da minha insónia,

O bosque como foi à tarde, quando lá passeamos, a rosa,

A madeixa indiferente, o musgo, os pinheiros,

Toda a raiva de não conter isto tudo, de não deter isto tudo,

Ó fome abstracta das coisas, cio impotente dos momentos,

Orgia intelectual de sentir a vida!

Obter tudo por suficiência divina —

As vésperas, os consentimentos, os avisos,

As coisas belas da vida —

O talento, a virtude, a impunidade,

A tendência para acompanhar os outros a casa,

A situação de passageiro,

A conveniência em embarcar já para ter lugar,

E falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, uma frase,

E a vida dói quanto mais se goza e quanto mais se inventa.

Poder rir, rir, rir despejadamente,

Rir como um copo entornado,

Absolutamente doido só por sentir,

Absolutamente roto por me roçar contra as coisas,

Ferido na boca por morder coisas,

Com as unhas em sangue por me agarrar a coisas,

E depois dêem-me a cela que quiserem que eu me lembrarei da vida.

Sentir tudo de todas as maneiras,

Ter todas as opiniões,

Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,

Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,

E amar as coisas como Deus.

Eu, que sou mais irmão de uma árvore que de um operário,

Eu, que sinto mais a dor suposta do mar ao bater na praia

Que a dor real das crianças em quem batem

(Ah, como isto deve ser falso, pobres crianças em quem batem —

E por que é que as minhas sensações se revezam tão depressa?)

Eu, enfim, que sou um diálogo contínuo,

Um falar-alto incompreensível, alta-noite na torre,

Quando os sinos oscilam vagamente sem que mão lhes toque

E faz pena saber que há vida que viver amanhã.

Eu, enfim, literalmente eu,

E eu metaforicamente também,

Eu, o poeta sensacionista, enviado do Acaso

As leis irrepreensíveis da Vida,

Eu, o fumador de cigarros por profissão adequada,

O indivíduo que fuma ópio, que toma absinto, mas que, enfim,

Prefere pensar em fumar ópio a fumá-lo

E acha mais seu olhar para o absinto a beber que bebê-lo…

Eu, este degenerado superior sem arquivos na alma,

Sem personalidade com valor declarado,

Eu, o investigador solene das coisas fúteis,

Que era capaz de ir viver na Sibéria só por embirrar com isso,

E que acho que não faz mal não ligar importância à pátria

Porque não tenho raiz, como uma árvore, e portanto não tenho raiz

Eu, que tantas vezes me sinto tão real como uma metáfora,

Como uma frase escrita por um doente no livro da rapariga que encontrou no terraço,

Ou uma partida de xadrêz no convés dum transatlântico,

Eu, a ama que empurra os perambulators em todos os jardins públicos,

Eu, o polícia que a olha, parado para trás na álea,

Eu, a criança no carro, que acena à sua inconsciência lúcida com um coral com guizos.

Eu, a paisagem por detrás disto tudo, a paz citadina

Coada através das árvores do jardim público,

Eu, o que os espera a todos em casa,

Eu, o que eles encontram na rua,

Eu, o que eles não sabem de si próprios,

Eu, aquela coisa em que estás pensando e te marca esse sorriso,

Eu, o contraditório, o fictício, o aranzel, a espuma,

O cartaz posto agora, as ancas da francesa, o olhar do padre,

O largo onde se encontram as suas ruas e os chauffeurs dormem contra os carros,

A cicatriz do sargento mal encarado,

O sebo na gola do explicador doente que volta para casa,

A chávena que era por onde o pequenito que morreu bebia sempre,

E tem uma falha na asa (e tudo isto cabe num coração de mãe e enche-o)…

Eu, o ditado de francês da pequenita que mexe nas ligas,

Eu, os pés que se tocam por baixo do bridge sob o lustre,

Eu, a carta escondida, o calor do lenço, a sacada com a janela entreaberta,

O portão de serviço onde a criada fala com os desejos do primo,

O sacana do José que prometeu vir e não veio

E a gente tinha uma partida para lhe fazer…

Eu, tudo isto, e além disto o resto do mundo…

Tanta coisa, as portas que se abrem, e a razão por que elas se abrem,

E as coisas que já fizeram as mãos que abrem as portas…

Eu, a infelicidade-nata de todas as expressões,

A impossibilidade de exprimir todos os sentimentos,

Sem que haja uma lápide no cemitério para o irmão de tudo isto,

E o que parece não querer dizer nada sempre quer dizer qualquer cousa…

Sim, eu, o engenheiro naval que sou supersticioso como uma camponesa madrinha,

E uso monóculo para não parecer igual à ideia real que faço de mim,

Que levo às vezes três horas a vestir-me e nem por isso acho isso natural,

Mas acho-o metafísico e se me batem à porta zango-me,

Não tanto por me interromperem a gravata como por ficar sabendo que há a vida…

Sim, enfim, eu o destinatário das cartas lacradas,

O baú das iniciais gastas,

A entoação das vozes que nunca ouviremos mais –

Deus guarda isso tudo no Mistério, e às vezes sentimo-lo

E a vida pesa de repente e faz muito frio mais perto que o corpo.

A Brígida prima da minha tia,

O general em que elas falavam – general quando elas eram pequenas,

E a vida era guerra civil a todas as esquinas…

Vive le mélodrame où Margot a pleuré!

Caem as folhas secas no chão irregularmente,

Mas o fato é que sempre é outono no outono,

E o inverno vem depois fatalmente,

há só um caminho para a vida, que é a vida…

Esse velho insignificante, mas que ainda conheceu os românticos,

Esse opúsculo político do tempo das revoluções constitucionais,

E a dor que tudo isso deixa, sem que se saiba a razão

Nem haja para chorar tudo mais razão que senti-lo.

Viro todos os dias todas as esquinas de todas as ruas,

E sempre que estou pensando numa coisa, estou pensando noutra.

Não me subordino senão por atavismo,

E há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.

Das serrasses de todos os cafés de todas as cidades

Acessíveis à imaginação

Reparo para a vida que passa, sigo-a sem me mexer,

Pertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeira,

Nem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi.

No automóvel amarelo a mulher definitiva de alguém passa,

Vou ao lado dela sem ela saber.

No trottoir imediato eles encontram-se por um acaso combinado,

Mas antes de o encontro deles lá estar já eu estava com eles lá.

Não há maneira de se esquivarem a encontrar-me,

Não há modo de eu não estar em toda a parte.

O meu privilégio é tudo

(Brevetée, Sans Garantie de Dieu, a minh’Alma).

Assisto a tudo e definitivamente.

Não há jóia para mulher que não seja comprada por mim e para mim,

Não há intenção de estar esperando que não seja minha de qualquer maneira,

Não há resultado de conversa que não seja meu por acaso,

Não há toque de sino em Lisboa há trinta anos, noite de S. Carlos há cinquenta

Que não seja para mim por uma galantaria deposta.

Fui educado pela Imaginação,

Viajei pela mão dela sempre,

Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,

E todos os dias têm essa janela por diante,

E todas as horas parecem minhas dessa maneira.

Cavalgada explosiva, explodida, como uma bomba que rebenta,

Cavalgada rebentando para todos os lados ao mesmo tempo,

Cavalgada por cima do espaço, salto por cima do tempo,

Galga, cavalo electron-ion, sistema solar resumido

Por dentro da acção dos êmbolos, por fora do giro dos volantes.

Dentro dos êmbolos, tornado velocidade abstrata e louca,

Ajo a ferro e velocidade, vaivém, loucura, raiva contida,

Atado ao rasto de todos os volantes giro assombrosas horas,

E todo o universo range, estraleja e estropia-se em mim.

Ho-ho-ho-ho-ho!…

Cada vez mais depressa, cada vez mais com o espírito adiante do corpo

Adiante da própria ideia veloz do corpo projetado,

Com o espírito atrás adiante do corpo, sombra, chispa,

He-la-ho-ho … Helahoho …

Toda a energia é a mesma e toda a natureza é o mesmo…

A seiva da seiva das árvores é a mesma energia que mexe

As rodas da locomotiva, as rodas do elétrico, os volantes dos Diesel,

E um carro puxado a mulas ou a gasolina é puxado pela mesma coisa.

Raiva panteísta de sentir em mim formidavelmente,

Com todos os meus sentidos em ebulição, com todos os meus poros em fumo,

Que tudo é uma só velocidade, uma só energia, uma só divina linha

De si para si, parada a ciciar violências de velocidade louca…

Ho —-

Ave, salve, viva a unidade veloz de tudo!

Ave, salve, viva a igualdade de tudo em seta!

Ave, salve, viva a grande máquina universo!

Ave, que sois o mesmo, árvores, máquinas, leis!

Ave, que sois o mesmo, vermes, êmbolos, ideias abstratas,

A mesma seiva vos enche, a mesma seiva vos torna,

A mesma coisa sois, e o resto é por fora e falso,

O resto, o estático resto que fica nos olhos que param,

Mas não nos meus nervos motor de explosão a óleos pesados ou leves,

Não nos meus nervos todas as máquinas, todos os sistemas de engrenagem,

Nos meus nervos locomotiva, carro elétrico, automóvel, debulhadora a vapor

Nos meus nervos máquina marítima, Diesel, semi-Diesel,

Campbell, Nos meus nervos instalação absoluta a vapor, a gás, a óleo e a eletricidade,

Máquina universal movida por correias de todos os momentos!

Todas as madrugadas são a madrugada e a vida.

Todas as auroras raiam no mesmo lugar:

Infinito…

Todas as alegrias de ave vêm da mesma garganta,

Todos os estremecimentos de folhas são da mesma árvore,

E todos os que se levantam cedo para ir trabalhar

Vão da mesma casa para a mesma fábrica por o mesmo caminho…

Rola, bola grande, formigueiro de consciências, terra,

Rola, auroreada, entardecida, a prumo sob sóis, noturna,

Rola no espaço abstrato, na noite mal iluminada realmente

Rola …

Sinto na minha cabeça a velocidade de giro da terra,

E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim,

Centrífuga ânsia, raiva de ir por os ares até aos astros

Bate pancadas de encontro ao interior do meu crânio,

Põe-me alfinetes vendados por toda a consciência do meu corpo,

Faz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para Abstrato,

Para inencontrável, Ali sem restrições nenhumas,

A Meta invisível — todos os pontos onde eu não estou — e ao mesmo tempo …

Ah, não estar parado nem a andar,

Não estar deitado nem de pé,

Nem acordado nem a dormir,

Nem aqui nem noutro ponto qualquer,

Resol,,,er a equação desta inquietação prolixa,

Saber onde estar para poder estar em toda a parte,

Saber onde deitar-me para estar passeando por todas as ruas …

Ho-ho-ho-ho-ho-ho-ho

Cavalgada alada de mim por cima de todas as coisas,

Cavalgada estalada de mim por baixo de todas as coisas,

Cavalgada alada e estalada de mim por causa de todas as coisas …

Hup-la por cima das árvores, hup-la por baixo dos tanques,

Hup-la contra as paredes, hup-la raspando nos troncos,

Hup-la no ar, hup-la no vento, hup-la, hup-la nas praias,

Numa velocidade crescente, insistente, violenta,

Hup-la hup-la hup-la hup-la …

Cavalgada panteísta de mim por dentro de todas as coisas,

Cavalgada energética por dentro de todas as energias,

Cavalgada de mim por dentro do carvão que se queima, da lâmpada que arde,

Clarim claro da manhã ao fundo

Do semicírculo frio do horizonte,

Ténue clarim longínquo como bandeiras incertas

Desfraldadas para além de onde as cores são visíveis …

Clarim trémulo, poeira parada, onde a noite cessa,

Poeira de ouro parada no fundo da visibilidade …

Carro que chia limpidamente, vapor que apita,

Guindaste que começa a girar no meu ouvido,

Tosse seca, nova do que sai de casa,

Leve arrepio matutino na alegria de viver,

Gargalhada súbita velada pela bruma exterior não sei como,

Costureira fadada para pior que a manhã que sente,

Operário tísico desfeito para feliz nesta hora

Inevitavelmente vital,

Em que o relevo das coisas é suave, certo e simpático,

Em que os muros são frescos ao contacto da mão, e as casas

Abrem aqui e ali os olhos cortinados a branco…

Toda a madrugada é uma colina que oscila,

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… e caminha tudo

Para a hora cheia de luz em que as lojas baixam as pálpebras

E rumor tráfego carroça comboio eu sinto sol estruge

Vertigem do meio-dia emoldurada a vertigens —

Sol dos vértices e nos… da minha visão estriada,

Do rodopio parado da minha retentiva seca,

Do abrumado clarão fixo da minha consciência de viver.

Rumor tráfego carroça comboio carros eu sinto sol rua,

Aros caixotes trolley loja rua vitrines saia olhos

Rapidamente calhas carroças caixotes rua atravessar rua

Passeio lojistas “perdão” rua

Rua a passear por mim a passear pela rua por mim

Tudo espelhos as lojas de cá dentro das lojas de lá

A velocidade dos carros ao contrário nos espelhos oblíquos das montras,

O chão no ar o sol por baixo dos pés rua regas flores no cesto rua

O meu passado rua estremece camion rua não me recordo rua

Eu de cabeça pra baixo no centro da minha consciência de mim

Rua sem poder encontrar uma sensação só de cada vez rua

Rua pra trás e pra diante debaixo dos meus pés

Rua em X em Y em Z por dentro dos meus braços

Rua pelo meu monóculo em círculos de cinematógrafo pequeno,

Caleidoscópio em curvas iriadas nítidas rua.

Bebedeira da rua e de sentir ver ouvir tudo ao mesmo tempo.

Bater das fontes de estar vindo para cá ao mesmo tempo que vou para lá.

Comboio parte-te de encontro ao resguardo da linha de desvio!

Vapor navega direito ao cais e racha-te contra ele!

Automóvel guiado pela loucura de todo o universo precipita-te

Por todos os precipícios abaixo

E choca-te, truz!, esfrangalha-te no fundo do meu coração!

À moi, todos os objectos projéteis!

À moi, todos os objectos direções!

À moi, todos os objectos invisíveis de velozes!

Batam-me, trespassem-me, ultrapassem-me!

Sou eu que me bato, que me trespasso, que me ultrapasso!

A raiva de todos os ímpetos fecha em círculo-mim!

Hela-hoho comboio, automóvel, aeroplano minhas ânsias,

Velocidade entra por todas as ideias dentro,

Choca de encontro a todos os sonhos e parte-os,

Chamusca todos os ideais humanitários e úteis,

Atropela todos os sentimentos normais, decentes, concordantes,

Colhe no giro do teu volante vertiginoso e pesado

Os corpos de todas as filosofias, os tropos de todos os poemas,

Esfrangalha-os e fica só tu, volante abstrato nos ares,

Senhor supremo da hora europeia, metálico a cio.

Vamos, que a cavalgada não tenha fim nem em Deus!

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Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói,

Declina dentro de mim o sol no alto do céu.

Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.

Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar?

Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstrata,

Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo,

Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés,

Calcar, calcar, calcar até não sentir.

Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis,

Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou.

Cavalgada desmantelada por cima de todos os cimos,

Cavalgada desarticulada por baixo de todos os poços,

Cavalgada vôo, cavalgada seta, cavalgada pensamento-relâmpago,

Cavalgada eu, cavalgada eu, cavalgada o universo — eu.

Helahoho-o-o-o-o-o-o-o …

Meu ser elástico, mola, agulha, trepidação …

Álvaro de Campos, 22-5-1916