Archive for September, 2004

Soprava o vento pela fresta

Soprava o vento pela fresta

A menina comia nêspera

Antes de dar em segredo

O níveo corpo ao folguedo:

Mas antes provou ter tacto

Pois só o queria nu no acto

Um corpo bom como um figo

Não se vai foder vestido.

Para ela em tempos de ais

Nunca o gozo era demais.

Lavava-se bem depois:

Nunca o carro antes dos bois.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

One of a Kind!



Acabadinho de aterrar em frente ao escritório!

Cliquem nas fotos para ver Sua Excelência com detalhe!


 Posted by Hello

Gestão por Objectivos

Era uma vez uma aldeia onde viviam dois homens que tinham o mesmo nome: Joaquim Gonçalves.

Um era sacerdote e o outro, taxista. Quis o destino que morressem no mesmo dia.

Quando chegaram ao céu, São Pedro esperava-os.

– O teu nome?

– Joaquim Gonçalves.

– És o sacerdote?

– Não, o taxista.

São Pedro consulta as suas notas e diz:

– Bom, ganhaste o paraíso. Levas esta túnica com fios de ouro e este ceptro de platina com incrustações de rubis. Podes entrar.

– O teu nome?

– Joaquim Gonçalves.

– És o sacerdote?

– Sim, sou eu mesmo.

– Muito bem, meu filho, ganhaste o paraíso. Levas esta bata de linho e este ceptro de ferro.

O sacerdote diz:

– Desculpe, mas deve haver engano. Eu sou o Joaquim Gonçalves, o sacerdote!

– Sim, meu filho, ganhaste o paraíso. Levas esta bata de linho e…

– Não pode ser! Eu conheço o outro, Senhor. Era taxista, vivia na minha aldeia e era um desastre! Subia os passeios, batia com o carro todos os dias, conduzia pessimamente e assustava as pessoas. Nunca mudou, apesar das multas e repreensões policiais. E quanto a mim, passei 75 anos pregando todos os domingos na paróquia. Como é que ele recebe a túnica com fios de ouro e eu…..isto?

– Não é nenhum engano – diz São Pedro. Aqui no céu, estamos a fazer uma gestão mais profissional, como a que vocês fazem lá na Terra.

– Não entendo!

– Eu explico. Agora orientamo-nos por objectivos.

É assim: durante os últimos anos, cada vez que tu pregavas, as pessoas dormiam.

E cada vez que ele conduzia o táxi, as pessoas começavam a rezar. Resultados! Percebeste?

A propósito… será que o Vaticano quer ver afastado o Bispo de Leiria ( e como consequência ameaça tomar conta da Loja) por este ter permitido ao Dalai Lama rezar no Santuário de Fátima?!

Ou será por o Santuário se Orientar por resultados generosos todos os anos?!

Le Petit Prince – Antoine de Saint-Exupery

Chapitre XIV

La cinquième planète était très curieuse. C’était la plus petite de toutes. Il y avait là juste assez de place pour loger un réverbère et un allumeur de réverbères. le petit prince ne parvenait pas à s’expliquer à quoi pouvaient servir, quelque part dans le ciel, sur une planète sans maison, ni population, un réverbère et un allumeur de réverbères. Cependant il se dit en lui-même:

– Peut-être bien que cette homme est absurde. Cependant il est moins absurde que le roi, que le vaniteux, que le businessman et que le buveur. Au moins son travail a-t-il un sens. Quand il allume son réverbère, c’est comme s’il faisait naître une étoile de plus, ou une fleur. Quand il éteint son réverbère ça endort la fleur ou l’étoile. C’est une occupation très jolie. C’est véritablement utile puisque c’est joli.

Lorsqu’il aborda la planète il salua respectueusement l’allumeur:

-Bonjour. Pourquoi viens-tu dd’éteindre ton réverbère?

-C’est la consigne, répondit l’allumeur. Bonjour.

-Qu’est ce la consigne?

-C’est d’éteindre mon réverbère. Bonsoir.

Et il le ralluma.

-Mais pourquoi viens-tu de rallumer?

-C’est la consigne, répondit l’allumeur.

-Je ne comprends pas, dit le petit prince.

-Il n’y a rien à comprendre, dit l’allumeur. la consigne c’est la consigne. Bonjour.

Et il éteignit son réverbère.

Puis il s’épongea le front avec un mouchoir à carreaux rouges.

-Je fais là un travail terrible. C’était raisonnable autrefois. J’éteignais le matin et j’allumais le soir. J’avais le reste du jour pour me reposer, et le reste de la nuit pour dormir…

-Et, depuis cette époque, la consigne à changé?

-La consigne n’a pas changé, dit l’allumeur. C’est bien là le drame! la planète d’année en année a tourné de plus en plus vite, et la consigne n’a pas changé!

-Alors? dit le petit prince.

-Alors maintenant qu’elle fait un tour par minute, je n’ai plus un seconde de repos. J’allume et j’éteins une fois par minute!

-Ca c’est drôle! les jours chez toi durent une minute!

-Ce n’est pas drôle du tout, dit l’allumeur. Ca fait déjà un mois que nous parlons ensemble.

-Un mois?

-Oui. Trente minutes. Trente jours! Bonsoir.

Et il ralluma son réverbère.

Le petit prince le regarda et il aima cet allumeur qui était si fidèle à sa consigne. Il se souvint des couchers de soleil que lui-même allait autrefois chercher, en tirant sa chaise. Il voulut aider son ami:

-Tu sais… je connais un moyen de te reposer quand tu voudras…

-Je veux toujours, dit l’allumeur.

Car on peut être, à la fois, fidèle et paresseux.

Le petit prince poursuivit:

-Ta planète est tellement petite que tu en fais le tour en trois enjambées. Tu n’as qu’à marcher lentement pour rester toujours au soleil. Quand tu voudras te reposer tu marcheras… et le jour durera aussi longtemps que tu voudras.

-Ça ne m’avance pas de grand chose, dit l’allumeur. Ce que j’aime dans la vie, c’est dormir.

-Ce n’est pas de chance, dit le petit prince.

-Ce n’est pas de chance, dit l’allumeur. Bonjour.

Et il éteignit son réverbère.

Celui-là, se dit le petit prince, tandis qu’il poursuivait plus loin son voyage, celui-là serait méprisé par tous les autres, par le roi, par le vaniteux, par le buveur, par le businessman. Cependant c’est le seul qui ne me paraisse pas ridicule. C’est, peut-être, parce qu’il s’occupe d’autre chose que de soi-même.

Il eut un soupir de regret et se dit encore:

-Celui-là est le seul dont j’eusse pu faire mon ami. Mais sa planète est vraiment trop petite. Il n’y a pas de place pour deux…

Ce que le petit prince n’osait pas s’avouer, c’est qu’il regrettait cette planète bénie à cause, surtout, des mille quatre cent quarrante couchers de soleil par vingt-quatre heures!

Outono no mar, na vida, nas palavras..

Emil Nolde, 1910

Uma lâmina de ar

Atravessando as portas. Um arco,

Uma flecha cravada no Outono. E a canção

Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.

E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como

Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.

É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza

Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.

Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se

Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.

Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede

Cumprimenta o sol. Procura-se viver.

Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.

Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se

Como se, de repente, não houvesse mais nada senão

A imperiosa ordem de (se) amarem.

Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.

Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.

Não há um nome para a tua ausência. Há um muro

Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho

Que a minha boca recusa. É outono

A pouco e pouco despem-se as palavras.

Joaquim Pessoa

Da espuma dos dias



ao meio-dia na Belavista Posted by Hello

(adicionada)

Depois de uma semana de calor impossível de esquecer, volto, numa luta contra o tempo, a entrar no mar…

São os últimos momentos deste verão tardio, reminiscências que permanecerão durante o tempo em que os deuses nos vão castigar por gostarmos do sol.. do mar.. das coisas que parecem acessórias.

Mas que são essenciais enquanto suplemento de vida.. até à próxima primavera! Posted by Hello

Dedicado às gentes do Território de Olivença

Barraw-on-Furness

I

Sou vil, sou reles, como tôda a gente,

Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.

Quem diz que os tem é como eu, mas mente.

Quem diz que busca é porque não os tem.

É com a imaginação que eu amo o bem.

Meu baixo ser porém não mo consente.

Passo, fantasma do meu ser presente,

Ébrio, por intervalos, de um Além.

Como todos não creio no que creio.

Talvez possa morrer por êsse ideal.

Mas, enquanto não morro, falo e leio.

Justificar-me? Sou quem todos são…

Modificar-me? Para meu igual?…

– Acaba lá com isso, ó coração!

II

Deuses, fôrças, almas de ciência ou fé,

Eh! Tanta explicação que nada explica!

Estou sentado no cais, numa barrica,

E não compreendo mais do que de pé.

Por que o havia de compreender?

Pois sim, mas também por que o não havia?

Água do rio, correndo suja e fria,

Eu passo como tu, sem mais valer…

Ó universo, novêlo emaranhado,

Que paciência de dedos de quem pensa

Em outra cousa te põe separado?

Deixa de ser novêlo o que nos fica…

A que brincar? Ao amor? à indiferença?

Por mim, só me levanto da barrica.

III

Corre, raio de rio, e leva ao mar

A minha indiferença subjetiva!

Qual “leva ao mar”! Tua presença esquiva

Que tem comigo e com o meu pensar?

Lesma de sorte! Vivo a cavalgar

A sombra de um jumento. A vida viva

Vive a dar nomes ao que não se ativa,

Morre a pôr etiquêtas ao grande ar…

Escancarado Furness, mais três dias

Te aturarei, pobre engenheiro prêso

A sucessibilíssimas vistorias…

Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprêxo

(E tu irás do mesmo modo que ias),

Qualquer, na gare de cigarro aceso…

IV

Conclusão a sucata!… Fiz o cálculo,

Saiu-me certo, fui elogiado…

Meu coração é um enorme estrado

Onde se expõe um pequeno animálculo…

A microscópio de desilusões

Findei, prolixo nas minúcias fúteis…

Minhas conclusões práticas, inúteis…

Minhas conclusões teóricas, confusões…

Que teorias há para quem sente

O cérebro quebrar-se, como um dente

Dum pente de mendigo que emigrou?

Fecho o caderno dos apontamentos

E faço riscos e cinzentos

Nas costas do envelope do que sou…

V

Há quanto tempo, Portugal, há quanto

Vivemos separados! Ah, mas a alma,

Esta alma incerta, nunca forte ou calma,

Não se distrai de ti, nem bem nem tanto.

Sonho, histérico oculto, um vão recanto…

O rio Furness, que é o que aqui banha,

Só irônicamente me acompanha,

Que estou parado e êle correndo tanto…

Tanto? Sim, tanto relativamente…

Arre, acabemos com as distinções,

As subtilezas, o interstício, o entre,

A metafísica das sensações –

Acabemos com isto e tudo mais…

Ah, que ânsia humana de ser rio ou cais!



Poema de Álvaro de Campos

Gravuras de Bravo da Mata (1987, 1988 e 1994)